
REDESCOBRINDO OS PAIS DA IGREJA
Resumo[1]
Elivando Carvalho de Mesquita[2]
HAYKIN, Michael A. G. Redescobrindo os Pais da Igreja: quem eles eram e como moldaram a igreja. Tradução: Francisco Wellington Ferreira. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2012, 200p.
Michael A. G. Haykin atualmente é professor de História da Igreja e Espiritualidade Bíblica no The Southern Baptist Theological Seminary, em Louisville, Kentucky. É autor de vários livros nas mesmas áreas de docência, muitos traduzidos para o português.[3] A obra apreciada para resumo, foi editada pela primeira vez em língua inglesa (2011). Alguns capítulos foram desenvolvidos a partir de recortes e ampliações de artigos do autor anteriormente publicados, descritos em notas de rodapé.[4]
O capítulo um tem um caráter motivador e orientador. O autor destaca que grandes nomes da teologia reformada beberam nos Pais da Igreja. E.g., João Calvino (1509-64) e John Owen (1616-83), que foram profundamente influenciados por Agostinho (345-430) (p. 12-13). Uma denúncia especial é feita sobre a ignorância das Igreja Batistas acerca dos Pais, haja vista a influência da Patrística à teologia Batista. E.g., John Gill (1697-1771), cuja dívida teológica remonta às obras de Justino Mártir, Tertuliano e Teófilo de Antioquia (p. 13-14). Segundo o autor, o período da Patrística contempla os séculos I-VIII (p. 14-15). Por fim, ele destaca a produção de Atanásio (293-373) e o Creno Niceno (325), encerando com a descrição dos Pais escolhidos para compor a presente obra (p. 30-31).[5]
Dos capítulos dois ao sete, a obra descreve a vida e teologia dos Pais selecionados. Com relatos biográficos, suas principais contribuições e algumas ponderações particulares do autor. Ele ainda enfatiza o quanto a teologia evangélica contemporâneo é devedora e frágil, por esquecer os primeiros teólogos da fé cristã.
O segundo capítulo trata da vida e obra de Inácio de Antioquia (p. 33-54), sob o título “Morrendo por Cristo”, onde inicia destacando a importância das suas sete cartas devido à proximidade do período imediato aos Apóstolos (p. 33). Aqui o autor descreve e define termos e conceitos, como “mártir” (p. 36-38) e enfatiza o contexto das perseguições aos cristãos, por Roma e pelos judeus (p. 38-40). O autor descreve a prisão de Inácio na cidade de Antioquia por volta de 107-110, e seu envio para julgamento em Roma, destacando os requintes das punições romanas (p. 40-41). O autor descreve e ressalta a piedade e devoção de Inácio, bom base em seus próprios relatos, sobre seu martírio. Inácio desejava ardentemente sofrer e morrer como Cristo, como testemunho de sua fé (p. 43-48). Ele via o martírio como um dom do Espírito Santo (p. 49-51), pedagógico (p. 52) e apologético (p. 52-54).
O capítulo três, sob o título “Compartilhando a Verdade” (p. 55-77), é reservado à Epístola a Diogneto do século II (autor, destinatário e conteúdo). O Dr. Haykin lembra que a Epístola consiste em um breve tratado apologético, cujo objetivo é defender a fé cristã a um pagão, greco-romano, chamado Diogneto, através de respostas a questionamentos (p. 56). Embora o autor seja desconhecido, o uso elegante do grego mostra que era um cristão bem instruído (p. 56). Ainda assim que não seja possível saber quase nada da história e origem da Epístola. O seu acesso hoje, remonta a um manuscrito do século XIII ou XIV, descoberto em Constantinopla em 1436 (p. 57). Segundo a Epístola, observa-se a tolice do paganismo e a superioridade da fé cristã, apontando à crueldade da cultura pagã, e.g., o abandono e assassinato de bebês, especialmente meninas, usados como argumentos para mostrar a superioridade do cristianismo (p. 73).
O capítulo quatro é dedicado a Orígenes, sob o título “Interpretando as Escrituras”. Nascido em 185, no Egito, e conhecido como “Homem de Aço”, cuja inteligência era nítida desde a infância (p. 79). Foi agraciado com excelente educação na literatura grega e nas Escrituras. Origenes é destacado como um teólogo de fontes primárias em inúmeros campos, como, cristologia e pneumatologia, na defesa de inimigos da ortodoxia, e.g., modalismo (sabelianismo) (p. 81-82).
A respeito do Espírito Santo, o autor destaca suas obras e estudos como importantes pontos de partida para teologia cristão (p. 82-83), como de quem o Espírito procede. No entanto, ao fazer isso, o autor comenta que Orígenes “também assenta as bases para o pensamento daqueles que negariam a deidade do Espírito (e do Filho) no século seguinte” (p. 86). Haykin ainda observa que, com isso, Orígenes criou uma hierarquia na Trindade, colocando o Filho e o Espírito como inferiores ao Pai (p. 86). Embora o autor o realce como o maior pensador de seus dias (p. 91), ele finda observando que o seu sistema de três princípios na interpretação das Escrituras o marcou como fundador da interpretação alegórica (p. 98-104).
No capítulo cinco são apreciadas a vida e obra de Cipriano de Cartago e Ambrósio de Milão (pais latinos), que versaram muito sobre a Ceia do Senhor. Sob o título “Sendo Beijado”. Esse é o único capítulo em que o autor trata de dois personagens principais (p. 105-18).
Cipriano de Cartago (p. 107-14), viveu na alta sociedade romana (p. 107), e por volta de 240, desiludido pelo mundo, foi atraído à fé cristã por influência de sua amizade com Ceciliano (p. 108). Dentro de apenas dois anos após sua conversão e batismo (245/246), Cipriano é designado como bispo de Cartago, o principal da África de fala latina (p. 109). A Ceia do Senhor marcou fortemente sua teologia. Ele refletiu sobre o caráter espiritual e místico da Ceia e como ela representa a união de Deus com o Seu povo (p. 112). Foi a partir dele que a Ceia teve uma relação sacerdotal (p. 114).
Ambrósio de Milão (p. 114-18) é unido a Cipriano devido a teologia. Ocupou cargos políticos antes de ser bispo de Milão, é considerado como um dos principais defensores da ortodoxa contra as perseguições arianas, no tempo de Constantino II, imperador ariano (317-361) (p. 114). O autor ainda aponta a influência alegórica de Orígenes sobre Ambrósio, que o fez ser pioneiro ao usar o livro de Cântico dos Cânticos, como uma expressão da experiência do crente com a Ceia do Senhor (p. 117), e impactou fortemente Agostinho, que posteriormente registou que foi Ambrósio que introduziu o canto de hinos congregacionais na Igreja de Milão (p. 115). No entanto, embora semelhante a Cipriano quanto a ênfase Eucarística, Ambrósio vai além e abre as portas para o que seria a transubstanciação (p. 116).
O capítulo seis versa sobre Basílio de Cesareia, sob o título “Sendo Santo e Renunciando o Mundo” (p. 119-149). O autor destaque que, com a exceção de Agostinho de Hipona, é possível saber mais a respeito de Basílio de Cesareia, do que qualquer outro cristão da Igreja antiga, e.g., devido suas 311 cartas (p. 119-20). Em seu relato biográfico, o autor discorre sobre seus primeiros anos e sua conversão (p. 122). Nascido em Cesareia (330), vindo de família cristã, de pais que sofrerem pela fé, cujos bens foram confiscados sob perseguição (p. 120). Sua amizade com Gregório de Nazianzo é bastante enfatizada pelo autor, como algo que marcou sua vida.
Haykin apresenta Basílio como o reformador do sistema monástico, que ficou conhecido como cenobítico (p. 122-23). Impactado por seus pensamentos e escritos sobre humildade (p. 127-34). E importante defensor da ortodoxa contra o Arianismo que recebeu maior destaque, heresia que marcou o século IV. Nessa controvérsia, o Credo Niceno (325) serviu de muralha para impedir seu avanço (p. 135-37), tendo Atanásio como nome de destaque na defesa do Credo Niceno (c. 350), e quando ele morreu (373), Basílio assume o seu lugar no fronte (p. 137). O que fez Basílio se voltar para os estudos sobre o Espírito Santo (p. 140-46). O Dr. Haykin ressalta que, mesmo que Basílio nunca tenha testemunhado o triunfo de sua doutrina sobre o Espírito Santo (morreu em 379), isso aconteceu em 381, no Credo Niceno-Constantinopolitano (p. 147).
O capítulo sete é o último que se dedica a tratar de um personagem histórico. Ele discorre sobre a vida, missão e obra de Patrício, sob o título “Salvando os Irlandeses” (p. 151-72). Autor lembra do domínio Romano na Britânia, terra natal de Patrício (p. 154-55) e a história da Igreja naquele local (p. 155-58). Nesse contexto de invasões, perseguições e queda do Império Romano, Patrício, enquanto rapaz, é sequestrado e escravizado por piratas irlandeses (p. 153). Apesar de ter sido criado em um lar cristão, e na classe elevada da sociedade britânico-romana (p. 161), sua conversão veio somente diante dos terrores do sequestro e escravização (p. 162). Depois de seis anos de cativeiro (Irlanda), retornar à sua família na Britânia (p. 162). Depois ele retorna como missionário para o mesmo local de seu cativeiro (432) (p. 162-63). Ali, a Igreja Celta é fortemente impactada por sua paixão missionária e teologia (p. 166-172).
O capítulo oito do livro é um relato biográfico do autor, a respeito de sua vida acadêmica voltada ao estudo dos Pais da Igreja e os nomes que o influenciaram. O capítulo é intitulado “Andando com os Pais da Igreja”, e o subtítulo “Meus Primeiros Passos em uma Jornada Vitalício” (p. 173-82). Nele o autor literalmente expõe a cronologia e influências em sua vida em relação ao estudo da vida, teologia e espiritualidade dos Pais da Igreja.
A obra finda com dois apêndices. O Apêndice um se concentra em oferecer um guia para iniciação ao estudo dos Pais (p. 185-86). O Apêndice dois se dedica a tratar das obras de Jaroslav Pelikan, que teve forte influência na vida acadêmica do autor. Ainda assim, Haykin tece algumas críticas sobre suas posições não ortodoxas (p. 189-96).
[1] Resumo apresentado à disciplina História da Igreja I, ministrada pelo professor Dr. Ronald Miller.
[2] Mestrando em Master of Arts in Reformed Baptist Theology, no Seminário Batista Confessional do Brasil (SBCB) em parceria Covenant Baptist Theological Seminary (CBTS), Módulo 3.
[3] SBTS < https://www.sbts.edu/academics/faculty/michael-a-g-haykin/ > Acessado em 30.06.2022.
[4] E.g.: p. 13, 33, 56, 105, 119.
[5] Inácio de Antioquia (influente 80-107); o autor da Epístola a Diogneto; Orígenes (c. 185-254); Cipriano (c. 200-58); Ambrósio (c. 339-97); Basílio de Cesareia (330-79) e Patrício (c. 389-461) (p. 30).