Resenhas
A HISTÓRIA DAS DOUTRINAS CRISTÃS

A HISTÓRIA DAS DOUTRINAS CRISTÃS

Resenha Crítica[1]

Elivando Carvalho de Mesquita[2]

BERKHOF, Louis. A História Das Doutrinas Cristãs. São Paulo: PES, 1992, 264p.

Louis Berkhof foi um renomado teólogo sistemático, primeiro presidente do Calvin Seminary e profundamente influenciado pelo movimento neo-calvinista holandês de Abraham Kuyper. Estudou aos pés de B. B. Warfield e Geerhardus Vos (Princeton Seminary). Ensinou teologia exegética e NT (Calvin Seminary) e escreveu diversos livros de referência, dentre eles uma Teologia Sistemática (1938).[3]

No aspecto geral, o livro segue uma divisão dogmática, embora seu desenvolvimento se concentre em apurar como tais doutrinas foram desenvolvidas ao longo da história. Flui cronologicamente, dos primeiros Pais à teologia pós-Reforma.[4]

A obra inicia, após o brevíssimo prefácio do autor, com uma Introdução Geral (p. 15-34) e o Desenvolvimento Doutrinário Preparatório (p. 35-73). Serve de base para compreensão do livro. Na Introdução Geral, o autor estabelece a distinção fundamental entre “doutrina” e “dogma”, apontando também seu sobre ao “dogma”, o qual ele define em como a Igreja formulou e desenvolveu conceitos e reflexões bíblicos, destacando o seu papel e suas metodologias (p. 17-18).

No Desenvolvimento Doutrinário Preparatório, o plano de fundo é estabelecido para a compreensão do ambiente das controvérsias. São observadas as fontes e bases sobre as quais as principais doutrinas seriam estabelecidas. Dos Pais Apostólicos e as diversas seitas e suas formulações doutrinárias. Assim como, os apologistas na defesa da fé cristã. Defesa essa que também resultou em formulações doutrinárias.

A Doutrina da Trindade é terceira parte do livro (p. 75-89). Nela o autor segue o esquema paradigmático da obra, estabelece o contexto histórico e expõe o desenvolvimento da doutrina até a pós-Reforma. O arianismo recebe destaque por ter sido o germinador da controvérsia, por isso o Concílio de Nicéia (em Atanásio) também é ressaltado, por ter sido nele reputado heresia. Tertuliano é ressaltado, por ter gestacionado a terminologia da tri-pessoalidade de Deus (p. 77). A controvérsia girou em torno da unidade da essência do Deus Trino, em harmonia às distinção das Três Pessoas. Novamente, o Ocidente e o Oriente seguem caminhos opostos (p. 78-79).[5] Os três capadócios, juntamente com Agostinho encerraram a controvérsia (p. 82-85).

A Doutrina de Cristo é reservada a quarta parte (p. 91-112). Berkhof mostra que tais controvérsias em torno da Pessoa de Cristo é continuação e consequência da Trindade. O autor destaca o tempo dos Concílios (p. 97-98), como o de Éfeso de Constantinopla, tratando da relação entre Cristo e Maria (theotokos). O foco era ao devido equilíbrio entre a unidade e a diversidade das naturezas de Cristo. Da Idade Média até a pós-Reforma, Berkhof aponta a forte influência filosófica na discussão, ao questionar a deidade e historicidade de Cristo, reduzindo-O a mera moralidade.

A Doutrina do Pecado e da Graça (quinta parte), recebe forte destaque devido sua influência à outras doutrinas (p. 113-45). As controvérsias (do Ocidente) gravitavam sobre o ser humano e sua essência, em relação às consequências ou não do Pecado Original. As discussões no Ocidente haviam preparado o caminho para Pelágio e Agostinho. Conforme destacado pelo autor, havia dificuldade em afirmar o mal inato ao homem desde sua criação (Pecado Original). Na Idade Média, a Igreja Romana segui o semi-agostinianismo e o semi-pelagianismo. Na Reforma, sob as influências de Agostinho e Anselmo, desenvolveu-se o conceito de representação Federal (p. 133).

Segundo Berkhof, a Doutrina da Expiação ou da Obra de Cristo (sexta parte, p. 147-79), foi pouco desenvolvida na Patrística, onde até mesmo Agostinho ficou a desejar (p. 152). No entanto, ressalvas são feitas à Epístola a Diogneto e Atanásio, este considerado o primeiro sistematizador da Doutrina (p. 150). Da Idade Média à Reforma, Anselmo de Canterbury é destacado por ser basilar para o desenvolvimento da Teologia da Expiação na Reforma, que distinguiu o caráter Penal da Expiação. Conforme Berkhof, teorias paralelas e errôneas foram observadas, entre elas, o arminianismo e o amiraldianismo, usando menos a Bíblias e mais a filosofia. A mesma ênfase filosófica foi observada no período pós-Reforma, fazendo do conceito de Expiação algo relativo.

A sétima parte é reservada à Doutrina da Aplicação e Apropriação da Graça Divina (p. 181-201), tratando da soteriologia. O autor destaca que as formulações soteriológicas foram extremamente seminais na Patrística. Isso porque, conceitos como fé, arrependimento e correlatos, não eram unânimes. O batismo recebe destaque como regenerador, juntamente com as boas obras e as penitências, como meios de salvação. No período escolástico prevaleceu o semi-pelagianismo, que deu forma a teologia sacramental da Igreja Romana. Na Reforma destaque-se o desenvolvimento da ordus salutis, nas várias perspectivas, catolicismo, luteranismo, místicas e a calvinista. Segundo Berkhof, devido o luteranismo abrir as portas para o sinergismo, o calvinismo (monergista) foi adotado pela Teologia Reformada. O arminianismo é pontuado como um sistema que exalta o homem como sendo um ser salvável depois da Obra de Cristo.

A Doutrina da Igreja e a dos Sacramentos (oitava parte, p. 203-29) são temos destacados por Berkhof, por ter sido observados com apreço desde o início das formulações teológicas Patrísticas. A Igreja, assumiu o meio exclusivo de salvação através da voz de Cipriano (p. 205-06). Este foi o primeiro a fundamentar a ideia de uma Igreja católica (p. 206). Agostinho o seguiu na luta contra o donatismo (p. 206-207). Na Reforma, Lutero marcou o processo de desmame do conceito eclesiológico romano, e foi seguido pela visão reformada (p. 214). A Teologia Sacramental é desenvolvida desde a Patrística, destacando o batismo como regenerador, por isso um sacramento (p. 222-25). A ceia foi conceituada como transubstanciação, modificada por Lutero, rejeitada por Zwínglio e equilibrada por Calvino (p. 227-29).

A Doutrinas das Últimas Coisas é a última doutrina desenvolvida (p. 231-43). O autor trata dos seus principais temas, a saber, “o estado intermediário”; “a segunda vinda e a esperança milenial”; “a ressurreição”  e o “juízo final e os galardões finais”. Quanto ao estado intermediário e a esperança milenial, o autor observa que a concepção comum da Igreja primitiva era da morte ao céu ou inferno imediatamente. Com a demora da volta de Cristo, essa unanimidade foi dissolvida, resultando, por exemplo, na doutrina do purgatório, que foi cabalmente rejeitada na Reforma. Apocalipse 20.1-6 foi visto com mais literalidade, colocando um intervalo entre a primeira e segunda ressurreição, quanto à esperança milenial. Mesmo sem unanimidade entre os Pais, na Idade Média o pré-milenismo foi considerado herético devido as influências de Agostinho. Quanto ao juízo final, observa Berkhof, que no geral foi aceito, embora alguns o espiritualizassem. O fato é que, destaca o autor, a Escatologia só ganha proeminência na discussão e no desenvolvimento teológico no período da pós-Reforma. A Obra finda com uma Bibliografia (p. 245-47); Índice de Nomes (p. 249-51); Índice de Assuntos (p. 252-57) e a indicação de Outros Títulos (p. 258-59).

O teor crítico da presente resenha será iniciado pontuando os aspectos que julguei negativo. Inicialmente pode ser destacada a dificuldade na catalogação apresentada pelas publicações da presente obra no mercado. A publicação utilizada para esta resenha é identificada como Primeira Edição em português de 1992, sendo baseado na Primeira Edição em inglês de 1937. Contudo, uma publicação posterior a essa, apontada também como Primeira Edição em português, só que do ano de 2015. Sendo a Primeira Edição em inglês de 1992. Algo bastante confuso.

Logo nas primeiras páginas lidas fica claro que a presente obra foi desenvolvida sob profunda e extensa pesquisa, por um escritor erudito acadêmico. Tal diagnóstico carrega consigo pontos positivos e negativo, quanto a acessibilidade da obra. Os temas e termos iniciais levantados pelo autor, ainda que brevemente desenvolvidos, remontam a um nível de conhecimento mais apurado. Isso faz com que a obra não seja acessível a todos.

O difícil vocabulário utilizado na edição em português, naturalmente, corresponde ao mesmo nível do vocabulário da edição em inglês. O que ressalta a falta de preocupação em deixar a obra mais acessível, assim como uma leitura mais fluída. Mesmo que isso significasse, talvez, alterar o teor da obra. O fato é que, num primeiro momento, caso não haja persistência ou obrigatoriedade na leitura, tais características podem dissuadir o leitor ou estudante.

Outros fatores que dificultam a fluidez da leitura são as citações de termos específicos sem definição, ligados às seitas dos primeiros séculos da Igreja, por exemplo. Bem como as citações de proposições em latim sem tradução. Em relação aos termos e proposições em latim, a dificuldade de compreensão pode ser dirimida observando atentamente o contexto da citação. Embora, algumas vezes, para ser preciso, seja necessário consultar outras fontes. Quanto às terminologia que identificam seitas do primeiro século, por exemplo, mesmo considerando atentamente o contexto, leitores iniciantes não compreenderão.

Obviamente, tais considerações apresentadas acima não diminuem o valor da obra resenhada. Na verdade, isso torna apenas evidente que a obra possui peculiaridades planejadas que apontem um público específico ao qual ela se destina. Essa percepção fica evidente justamente devido as limitações e características aqui apresentadas. Ou seja, ler a presente obra sem o conhecimento basilar sobre a história da Igreja e da teologia, demandará mais esforço intelectual, tempo e atenção do leitor. Assim como, exigirá que outras fontes sejam pesquisadas.

Contudo, tais aspectos negativos de forma alguma descredibiliza ou diminui o valor da presente obra. Na verdade, o alto nível da pesquisa e o rigor da apuração dos dados apresentados pela obra, exigem um nível equiparado de julgamento. Isso quer dizer que, a obra também apresenta o seu autor. Por isso, certamente, muitos aspectos considerados negativos acima, poderiam ser observados simplesmente devido ao  espectro inferior, diferente do qual o público para o qual a obra foi pensada. Dessa forma, a consideração mais sóbria seria, observá-la não pelo prisma de leitores de outro tempo, mais pobres intelectualmente, em relação ao autor. Mas que, um teólogo de alto nível, gerou uma obra de sua mesma envergadura.

Considerando o tamanho da obra, a pesquisa apresentada contempla uma vastidão interessante da história da Igreja e da teologia ao mesmo tempo. A edição utilizada para a presente resenha (1992) é muito bem divindade, tanto teologicamente, quanto em seu caráter pedagógico. O que também diminui o aspecto negativo apresentando acima, quando a densidade do conteúdo, Tal diagramação da edição faz com que o leito tenha pausas para reminar e aprofundar o que foi lido, sem que o conteúdo apresentando não tenha sido concluído.

Sem dúvida alguma a presente obra deve ser leitura obrigatória a todo estudante de teologia, por ser consagrada como uma das obras de referência na teologia Reformada. Com ela, o leitor terá acesso a espinha dorsal do desenvolvimento das doutrinas basilares, sobre as quais fazemos teologia hoje. Berkhof nos fornece uma visão ao longo das eras, ao descrever os principais personagens e temas de debate e como eles foram desenvolvidos ao longo do tempo.


[1] Resenha apresentada à disciplina História da Igreja I, ministrada pelo Prof. Dr. Ronald Miller.

[2] Mestrando em Master of Arts in Reformed Baptist Theology, Seminário Batista Confessional do Brasil (SBCB) em parceria Covenant Baptist Theological Seminary (CBTS), Módulo 3.

[3] Waanstra, Henry, Encyclopedia of the Reformed faith. Saint Andrew Press, 1992), p. 32.

[4] Publicado pela primeira vez em língua inglesa (1937), intitulado Dogmática Reformada, com a finalidade de servir como recurso histórico de sua magna Teologia Sistemática.

[5] O Ocidente, com Tertuliano (subscreve Nicéia, homoousios: da mesma substância do Pai), e o Oriente com Orígenes (semi-arianismo, homoiousios: substância similar ao Pai) (p. 80-82).

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