
DEFININDO O CESSACIONISMO
Transcrição e síntese do sermão ministrado pelo Pr. Tom Pennington na Conferência G3 Ministries em 2015.
Introdução
Este estudo apresenta uma síntese fiel de um sermão pregado pelo pastor Tom Pennington[1] na Conferência G3 Ministries[2] no ano de 2015,[3] cujo tema central foi a compreensão bíblica e histórica do Cessacionismo. Consiste em uma exposição cuidadosa, que não apenas define o termo, mas também responde às objeções mais comuns levantadas contra ele, esclarecendo que o Cessacionismo não nega a ação de Deus no mundo nem a realidade de sua intervenção sobrenatural. Pennington demonstra que o debate não está na existência de milagres, mas na natureza e finalidade dos chamados dons de sinais, bem como no papel exclusivo que exerceram no período apostólico para autenticar a revelação e lançar o fundamento da Igreja de Cristo.
A síntese do estudo abaixo é estruturada em cinco etapas organizadas de modo progressivo. Primeiro, a desconstrução dos equívocos quanto ao Cessacionismo, corrigindo noções equivocadas sobre deísmo, ausência de fé e suposta negação da ação divina. Segundo, a apresentação das definições centrais contrastando Continuísmo e Cessacionismo. Terceiro, a demonstração bíblica de que os dons miraculosos possuíam caráter fundacional e são vinculados ao apostolado. Quarto, a análise das diferenças entre os dons bíblicos e as manifestações modernas, incluindo o testemunho histórico da Igreja. Por fim, a ênfase na suficiência das Escrituras e na ordem bíblica para o culto, mostrando que a edificação do corpo se dá pela Palavra inspirada e plenamente suficiente para a vida e piedade.
1. Desconstrução de Equívocos e Refutação das Objeções ao Cessacionismo
O Pennington inicia abordando a necessidade de esclarecer o termo “Cessacionismo”, argumentando que rótulos podem ser enganosos. Para isso, ele dedica uma parte significativa do sermão para refutar sete objeções comuns, definindo o que o Cessacionismo não é. Pennington enfatiza que os cessacionistas não possuem uma visão naturalista ou deísta do mundo; eles creem firmemente em um Deus criador que sustenta todas as coisas e na realidade de seres espirituais como anjos e Satanás (Cl 1.16–17; Hb 1.3; Ef 6.11–12; Jd 9).
Ele esclarece vigorosamente que o Cessacionismo não nega que Deus realize milagres hoje, destacando que Deus é livre para fazer o que lhe apraz (Sl 115.3; Dn 4.35) e frequentemente realiza o maior milagre de todos: a regeneração espiritual (o novo nascimento) (Jo 3.3–8; Tt 3.5; 1Pe 1.3). Além disso, nega-se a acusação de que não creem na cura divina; O próprio pregador compartilha um testemunho pessoal dramático de quando sofreu uma parada cardíaca de 15 minutos e foi restaurado à vida e saúde, atribuindo isso inteiramente à resposta de Deus às orações, e não à medicina estatística.
O ponto central é a distinção entre Deus realizar um milagre soberanamente, o que Ele faz (Sl 135.6; Ef 1.11), e Deus conceder a um indivíduo o dom de milagres ou dom de cura para operar à vontade, o que cessou (1Co 13.8–10; Hb 2.3–4).
Pennington também refuta a ideia de que os cessacionistas substituem o Espírito Santo pela Bíblia, usando a analogia de que amar as cartas de uma esposa é uma forma de amar a esposa que as escreveu; assim, amar as Escrituras é amar o Espírito que as inspirou.
2. Definições Contrastantes: A Fragilidade do Continuísmo e a Definição de Cessacionismo
O segundo ponto foca nas definições essenciais e na crítica aos argumentos do Continuísmo (a crença de que os dons miraculosos continuam normativos hoje). Pennington define o continuísmo e expõe a fraqueza de seus argumentos principais.
“O Continuísmo consiste no ensino de que os dons miraculosos operados pelo Espírito Santo nos apóstolos e nos crentes do primeiro século (tais como línguas, cura e profecia) permanecem presentes na Igreja hoje.”
Pennington ainda explica que essa visão engloba tanto a crença de que esses dons continuaram de forma ininterrupta desde o Pentecostes, quanto a ideia de que eles diminuíram historicamente e foram “restaurados” no início do século XX, convergindo no argumento central (o Dr. Samuel Waldron é citado aqui) de que essas manifestações sobrenaturais não apenas existem, mas devem ser consideradas normativas para a vida da igreja atual.”
Ele também destaca que o argumento de que “a Bíblia não diz explicitamente que os dons cessariam” é falho, pois a Bíblia também não diz explicitamente que o ofício de Apóstolo cessaria, e no entanto, a vasta maioria dos cristãos concorda que não existem mais Apóstolos como os doze ou Paulo.
A seguir, são oferecidas críticas à interpretação continuísta de 1 Coríntios 13.10 (“quando vier o que é perfeito“), observando que até teólogos simpáticos aos carismáticos admitem que essa passagem não prova que os dons durarão até a segunda vinda.
Pennington também ataca o argumento baseado na “experiência” (milhões de pessoas alegando experiências carismáticas), alertando que a experiência subjetiva nunca deve sobrepor a autoridade das Escrituras, comparando isso aos supostos milagres do catolicismo que também são rejeitados pelos evangélicos.
Em contraste, o Cessacionismo é definido, não como o fim dos milagres de Deus, mas como o ensino de que o Espírito Santo não concede mais soberanamente os dons miraculosos (como línguas, profecia e cura) a indivíduos como uma prática normativa da Igreja, pois esses dons tinham um propósito específico na era apostólica que já foi cumprido (Hb 2.3–4; Ef 2.20).
3. O Propósito Histórico dos Milagres e o Fundamento Apostólico
Entrando na confirmação bíblica do Cessacionismo, Pennington argumenta que os milagres bíblicos não eram eventos aleatórios, mas agrupados em três períodos históricos principais (Moisés/Josué, Elias/Eliseu, Jesus/Apóstolos), totalizando cerca de 200 anos em milhares de anos de história.
- Moisés e Josué: Para autenticar a entrega da Lei e a fundação de Israel.
- Elias e Eliseu: Para reivindicar a autoridade de Deus em tempos de apostasia.
- Jesus e os Apóstolos: Para confirmar o Messias e a nova revelação apostólica.
O propósito exclusivo desses sinais era autenticar e credenciar os mensageiros da revelação divina. Assim como os milagres validaram Moisés e Jesus como enviados de Deus, eles validaram os Apóstolos.
Consequentemente, com o fim da nova revelação (a Bíblia completa), a necessidade de credenciais miraculosas desapareceu. O pregador conecta isso ao argumento do fim do ofício apostólico: se o dom de ser Apóstolo cessou, isso prova que houve uma mudança na operação do Espírito após o primeiro século. Ele baseia-se fortemente em Efésios 2.20, que descreve a Igreja como um edifício construído sobre o “fundamento dos apóstolos e profetas“.
A lógica apresentada é arquitetônica: um fundamento é lançado apenas uma vez no início da construção. Uma vez que os Apóstolos e profetas do Novo Testamento lançaram esse alicerce (a revelação doutrinária), o trabalho deles está concluído. Não se continua lançando o fundamento no 20º andar de um prédio; constrói-se a superestrutura sobre o que já foi estabelecido. Portanto, os dons revelacionais e fundacionais (profecia e apostolado) cumpriram seu papel e cessaram.
4. A Discrepância na Natureza dos Dons e o Testemunho Histórico
Este ponto aborda a natureza qualitativa dos dons descritos na Bíblia em comparação com as manifestações modernas. Pennington argumenta que, se os dons continuassem, eles deveriam ser idênticos aos do Novo Testamento, mas não o são.
O dom bíblico de línguas (Atos 2) consistia em idiomas humanos reais e conhecidos, falados para estrangeiros (At 2.4, 6, 8, 11), enquanto as “línguas” modernas são balbucios ininteligíveis ou linguagens de oração estáticas. Da mesma forma, a profecia bíblica era infalível e autoritativa (“Assim diz o Senhor“) (Dt 18.18–22; Jr 1.9; 2Pe 1.21), enquanto a profecia carismática moderna é falível, subjetiva e cheia de erros (“Eu acho que o Senhor está dizendo…“) (1Jo 4.1).
Quanto às curas, as do Novo Testamento eram imediatas, completas e inegáveis (restaurando órgãos e membros visivelmente) (Mt 8.3; At 3.6–8; Mc 2.11–12), ao contrário das curas modernas que são frequentemente parciais, psicossomáticas ou inverificáveis.
Além da natureza dos dons, Pennington invoca o testemunho da história e das próprias Escrituras (Hb 2.3-4), observando que, mesmo dentro do período do Novo Testamento, os milagres já estavam sendo referidos no tempo passado como uma forma de confirmação da mensagem apostólica para a segunda geração de cristãos. Ele nota que, historicamente, a Igreja cristã ortodoxa reconheceu que esses dons cessaram com a morte dos apóstolos, e que o ressurgimento dessas alegações é um fenômeno recente ou ligado a grupos teologicamente desviados.
5. A Suficiência das Escrituras e a Ordem no Culto
O último ponto principal foca na suficiência da Bíblia e nas regras bíblicas para o uso de dons. Baseando-se em 2 Timóteo 3.16-17, o Pennington afirma que as Escrituras são “sopradas por Deus” e são totalmente suficientes para tornar o homem de Deus “perfeito” (capaz, apto) e “perfeitamente habilitado” para toda boa obra.
Se a Bíblia é suficiente para equipar completamente o crente para a vida, piedade e ministério, então não há necessidade de novas revelações, profecias ou dons de sinal adicionais (Ef 2.20). O Espírito Santo equipa a Igreja através da Palavra, não à parte dela (Jo 17.17; 1Co 2.13; Ef 6.17)
Finalmente, Pennington desafia a prática carismática apontando para as diretrizes estritas de Paulo em 1 Coríntios 14 para o uso de dons:
- Se línguas fossem faladas, deveria ser por dois ou três no máximo, um de cada vez, e com interpretação obrigatória; caso contrário, deveriam ficar calados.” (1Co 14.27–28);
- Além disso, as mulheres deveriam permanecer em silêncio nessas manifestações (1Co 14.34–35).
Ele observa a ironia trágica de que a maioria dos grupos que alegam ter esses dons hoje ignora flagrantemente e desobedece a essas ordens bíblicas explícitas. Ele conclui que tal desobediência sistemática entristece o Espírito Santo, em vez de honrá-lo, reforçando o argumento de que o que ocorre hoje não é a obra do Espírito descrita na Bíblia.
Conclusão
Diante de tudo apresentado, o cerne do Cessacionismo não é uma negação da presença e do poder de Deus, mas a afirmação de que os dons de sinais e revelação, extraordinários, tiveram um papel exclusivo na formação do fundamento apostólico da Igreja (Ef 2.20; Hb 2.3–4). Ao confirmar os mensageiros e autenticar a revelação, esses dons cumpriram plenamente sua função (2Co 12.12).
Isso significa que, uma vez estabelecida a base doutrinária e entregue a Escritura completa, a edificação passa a ocorrer pela Palavra inspirada, suficiente e permanente (2Tm 3.16–17; Jo 17.17). Milagres continuam sendo obras soberanas de Deus, mas não como prerrogativas distribuídas a indivíduos para operarem conforme sua vontade, e sim como atos divinos extraordinários conforme o beneplácito eterno do Senhor (Sl 115.3; Dn 4.35).
Portanto, torna se evidente que o debate não é meramente terminológico, mas estrutural.
O Pennington recorda que a distinção entre revelação e resposta, entre fundamento e edificação, precisa ser preservada para que o culto, a doutrina e a piedade não se desviem da autoridade final das Escrituras. O sermão é um chamado a reavaliarem práticas, discernirem experiências e julgarem afirmações espirituais sob a luz da Palavra (1Ts 5.21; 1Jo 4.1), lembrando que o verdadeiro agir do Espírito Santo honra a ordem estabelecida, edifica o corpo de Cristo e conduz à centralidade sólida da verdade bíblica (1Co 14.33; Ef 4.12–15; Jo 16.13).
[1] Este material foi transcrito e sintetizado com o auxílio de Inteligência Artificial
[3] https://www.youtube.com/watch?v=ZiDkG85La1Q&t=547s
Infelizmente hoje em dia vemos muitas igrejas e falsos mestres “usando” de forma errônea os dons descritos nas escrituras, e na grande maioria das vezes comercializando. Pessoas que não sabem sobre as artimanhas desses falsos mestre, deduzem que todas as igrejas evangélicas são iguais, colocando em xeque as igrejas e servos fiéis que se dedicam de fato, à Palavra de Deus, para a edificação de seus membros!
Essa interpretação bíblica realmente parece descrever melhor o que a palavra de Deus estabelece sobre esses dons pra nós. Explicando o porquê de não percebermos mais tais dons nos últimos séculos da igreja moderna. Entendo que esta doutrina acaba por enquadrar como ímpios os que falsamente declaram ter esses dons sem os comprovar com a edificação da igreja. Os dons jamais poderiam ser utilizados para promoção própria, mas para a edificação da Igreja.