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O PECADO DA OMISSÃO

O PECADO DA OMISSÃO

O Desconforto e a Indisposição são partes de ser cristão

Portanto, aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz nisso está pecando.” (Tg 4.17)

“A omissão não é neutra — é rebelião disfarçada, incredulidade mascarada de religiosidade e moralismo. Por isso, é urgente que cada membro da igreja local examine a si mesmo com sinceridade, buscando as evidências da obra do Espírito em sua vida (2Co 13.5).”[1]

Intencionalidade é uma palavra extremamente conhecida por todos aqueles que fazem parte de nossa pequena igreja e até mesmo por aqueles que, de alguma forma, acompanham os trabalhos que desenvolvemos. Isso porque intencionalidade é uma expressão que revela o quanto algo ou alguém possui a atenção das nossas motivações e a dedicação do nosso coração. Diz respeito àquilo em que ou em quem investimos tempo, planejamento e propósito para alcançar um objetivo ou resultado.

Fazemos isso, muitas vezes, sem perceber (Lc 14.28). Somos intencionais no planejamento da nossa carreira, da nossa vida acadêmica e nos relacionamentos. Seja quando almejamos o casamento, quando desejamos adquirir um bem — como uma casa própria — conquistar o primeiro carro ou moto, ou mesmo quando planejamos um simples curso de formação. Assim, ainda que não utilizemos essa expressão com frequência, a intencionalidade ocupa um lugar significativo em nossa vida (Pv 21.5).

Os planos do diligente tendem à abundância, mas a pressa excessiva, à pobreza.” (Pv 21.5).

Quando trazemos esse contexto para a vida cristã, percebemos que o cristão é, por natureza, alguém intencional. A intencionalidade é, sem dúvida, uma expressão que é aplicada e descreve o cristão (Ef 5.15–16; Fp 1.21). Somos cidadãos dos céus, nascidos do alto, embaixadores de Cristo Jesus (Fp 3.20; Jo 3.3; 2Co 5.20). Portanto, somos um povo específico para uma vida específica, no qual, por meio do novo nascimento, o Senhor nos concedeu características que nos distinguem e nos identificam como aquilo que somos, uma nova criatura que vive intensamente para Cristo Jesus (2Co 5.17; 1Pe 2.9–10). Assim, a intencionalidade nos descreve e nos define.

Isso faz com que tudo o que fazemos ou observamos passe por um crivo que não é nosso, mas do Senhor, sabendo que tudo o que fazemos ou deixamos de fazer será requerido de nós, pois prestaremos contas (Cl 3.17; Rm 14.12).

A partir desse contexto, observamos o texto de Tiago 4.17 e sua advertência contundente, tão negligenciada em nossos dias, em que a convicção cristã tem sido substituída pela busca por conforto e comodidade – que se tornaram ídolos do nosso tempo (2Tm 4.3–4).

Hoje, observamos facilmente a busca frenética de cristãos que querem ser aceitos e bem vistos por todos, em vez de, com convicção e ousadia, se posicionarem diante daqueles que maculam a fé cristã, zombam do Senhor e pervertem a verdadeira religião (Gl 1.10; Jd 3).

Porventura, procuro eu, agora, o favor dos homens ou o de Deus? Ou procuro agradar a homens? Se agradasse ainda a homens, não seria servo de Cristo.” (Gl 1.10)

“Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos.” (Jd 3).

Quando Tiago afirma que aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz comete pecado, ele mostra que pecamos tanto de forma ativa quanto passiva (Tg 4.17). A OMISSÃO é, portanto, um ato de negligência que se traduz em pecado, pois representa a escolha de se calar diante da deturpação da fé cristã e da corrupção do testemunho do Senhor. Tiago faz essa afirmação no contexto de igrejas locais, nas quais irmãos, por omissão e negligência, estavam contribuindo para a distorção da fé.

Quando eu disser ao perverso: Certamente, morrerás, e tu não o avisares e nada disseres para o advertir do seu mau caminho, para lhe salvar a vida, esse perverso morrerá na sua iniquidade, mas o seu sangue da tua mão o requererei.” (Ez 3.18).

11 Livra os que estão sendo levados para a morte e salva os que cambaleiam indo para serem mortos. 12 Se disseres: Não o soubemos, não o perceberá aquele que pesa os corações? Não o saberá aquele que atenta para a tua alma? E não pagará ele ao homem segundo as suas obras?” (Pv 24.11–12).

Dessa forma, a omissão se OPÕE diretamente à intencionalidade, sendo caracterizada pela negligência (Tg 4.17). Um bispo anglicano do século XVIII, Augustus Toplady, ao comentar o Salmo 89, chamou essa atitude de indolência.

Indolência é o estado de inatividade e passividade intencional, quando se escolhe a comodidade e se idolatra a aceitação dos outros em lugar da aprovação de Deus (Pv 13.4; Mt 6.24).

Infelizmente, vivemos em uma geração marcada pela timidez e pela covardia espiritual, em contraste com uma grande ousadia na busca por bens materiais e títulos acadêmicos (Mt 6.33-34; 1Jo 2.15–17). Esses elementos são vistos como meios de alcançar conforto e uma vida regalada e cômoda neste mundo.

Paralelamente a isso, idolatra-se a necessidade de aceitação, o desejo de ser bem visto e aprovado, de ser considerado prudente e equilibrado, realidades que têm se intensificado no contexto midiático atual, no qual se busca reconhecimento por meio de curtidas, compartilhamentos e comentários que enaltecem o ego (Jo 12.43; Rm 12.1-2). Essa realidade também alcança a igreja local, tornando as convicções cada vez mais maleáveis e instáveis (Ef 4.14).

“porque amaram mais a glória dos homens do que a glória de Deus.” (Jo 12.43).

Quando observamos para os grandes vultos da fé em nossa história – desde os relatos sagrados dos heróis da fé (Hb 11), passando por toda a história cristã, gloriosamente marcada por sangue, suor e lágrimas –, percebemos facilmente que convicção custa caro (At 14.21-22). Convicção custa tudo, inclusive a própria vida, quanto mais as comodidades, os confortos e os bens (Lc 14.26–27; Fp 3.7–8; Ap 12.11).

É isso que observamos, por exemplo, em nossos pais do passado, os primeiros Batistas Reformados, que, por pura convicção, se afastaram do senso comum quanto à conformidade ao Estado e à teologia (At 5.29; Gl 1.10). Ao editarem a sua Confissão de Fé de 1689, em seu apêndice, afirmaram:

Não se insinue que fazemos o serviço de Deus com consciência dúbia ou que o fazemos agora hesitantes, como se fôramos fazer doutro modo futuramente depois de posterior deliberação; não temos motivo algum para fazer isso, pois estamos totalmente persuadidos de que o que fazemos está de acordo com a vontade de Deus. Cordialmente propomos isto: que se qualquer dos servos do nosso Senhor Jesus, no Espírito de mansidão, tentar nos convencer de algum erro em nosso julgamento ou prática, nós ponderaremos seus argumentos diligentemente; e o consideraremos nosso melhor amigo, como um instrumento para nos converter de quaisquer erros que estejam em nosso caminho, pois nada podemos fazer deliberadamente contra a verdade, mas todas as coisas pela verdade (2Coríntios 13:8).[2]

Portanto, o problema não é a falta de conhecimento sobre o que é o bem ou sobre o que deve ser feito – na maioria das vezes o pecado é percebido. O problema é que, mesmo sabendo, muitas vezes escolhemos não agir (Lc 12.47; Rm 2.13). Essa escolha enfraquece a fé e corrompe a igreja local, pois ignoramos que tal atitude é pecado, exatamente como denuncia Tiago (Tg 4.17). Assim, aquele que sabe o que deve fazer e não age conforme esse conhecimento, peca contra o Senhor e, por isso, prestará contas (Rm 14.12; 2Co 5.10).


[1] MESQUITA, Elivando de Carvalho. A nutrição da igreja: a necessidade da mutualidade dos dons. Francisco Morato, SP: O Estandarte de Cristo, 2025, p. 103.

[2] TEIXEIRA, William. (ED.). A Fé Batista: Documentos da Fé Cristã, Bíblica, Histórica, Batista, Reformada e Confessional. Tradução: William Teixeira; Camila Rebeca Teixeira; Rafael Abreu. 1a Edição ed. Francisco Morato, SP: O Estandarte de Cristo, 2020, p. 182.

5 comentário sobre “O PECADO DA OMISSÃO

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      Sem sombra de dúvidas deixamos de fazer o nosso papel como cristãos, quando observamos pecados e desvios entre irmãos, e não fazemos nada quanto a mostrar o erro do irmão para que ele retorne ao caminho novamente, quando eu deixo de exercer esse serviço como cristão também estou pecando, isso acontece por falta de intencionalidade por não querer sair da zona de conforto, deixando para que outra pessoa veja e na maioria das vezes só quem confronta é o pastor. Que nos como cristãos sejamos mais ousados e intencionais exercendo os Dons que o Senhor nos deu.

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      Muito confrontador! Saber o que deve ser feito, mas muitas vezes negligenciamos por temer à homens ao invés de temer Aquele que sonda os nossos corações e pode fazer perecer no inferno tanto o corpo como a alma. O pecado do ego também está prevalecendo perante esses, como o pr. Elivando mencionou, preferem o conforto e a comodidade do que a luta!
      Que o Senhor nos faça lembrar desse artigo todas às vezes que buscarmos o conforto!

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      O artigo comentado em Tiago 4.17, O Pecado da Omissão, nos mostra que não fazer o que devemos, e tendo esse conhecimento, é o mesmo quando pratico o que é errado, tanto a mim, quanto ao meu próximo.
      O ego e o orgulho, nos faz pecar na Omissão, e como somos omissos nos afazeres da nossa igreja local. Isso mostra o quanto somos covardes em denunciar e confrontar os pecados dos irmãos e o nosso, deixando tudo na responsabilidade do pastor, que já se desgasta nos estudos para a nutrição da igreja; na edificação, crescimento, maturidade e piedade.
      Não adianta termos todo esse conhecimento, se não atentarmos e colocar em prática os ensinamentos.

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      É duro ser confrontado com essa realidade… mas é necessário. Quão hábeis nós somos para batalhar por projetos pessoais nessa terra que, na maioria das vezes, serve apenas para buscar algum tipo de “status” social e não temos o mesmo ímpeto para defender o testemunho do evangelho. Vejo essa aplicação sendo ainda mais forte quando refletido para si mesmo (pecados que cometo e não luto) do que externamente (pecados cometidos por outros e não ajudo estes a lutarem). Que possamos praticar o conteúdo desse artigo.

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      Excelente insight de Tg 4.17. Quantos pecados estão entranhados no pecado da omissão! E que perversidade é ter pão e não dar ao faminto, ter o remédio e não dar ao doente. Como o Pr. Elivando bem pontuou, a negligência jamais é passiva. É sempre uma escolha. E isso expõe nosso coração de maneira muito dolorosa, pois muito facilmente podemos ver como tantas e tantas vezes escolhemos a nós mesmos, ao invés do nosso Senhor!

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