
O AMOR PERSEVERANTE DE DEUS
Uma Reflexão Pastoral Baseada no livro de David Powlison | A graça de Deus no seu sofrimento. Tradução de Ingrid Rosane de Andrade Fonseca. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2019.
“ Até à vossa velhice, eu serei o mesmo e, ainda até às cãs, eu vos carregarei; já o tenho feito; levar-vos-ei, pois, carregar-vos-ei e vos salvarei.” (Is 46.4).
A presente reflexão é baseada especificamente no intrigante título do sétimo capítulo de David Powlison, “Provarei meu amor até o fim da sua vida”. Nele, somos ensinados que a vida, deste lado da eternidade, é uma constante experiência de provação do amor de Deus.
Seremos açoitados e assolados pelas dolorosas angústias da existência e, em cada uma dessas experiências, entre gemidos e lágrimas, Deus demonstrará o Seu santo e misericordioso amor por Seu povo.
A cada manhã, seremos lembrados desse amor e cuidado.
O próprio Deus nos concederá olhos espirituais para que possamos enxergar isso em cada nascer do sol (Ef 1.17–18). Poderíamos ter sucumbido diante das adversidades, desfalecido por causa das incertezas ou abandonado a perseverança (2Co 4.8–9; Hb 12.3). No entanto, fomos aproximados ainda mais do amor de Deus, por Sua pura graça (Rm 8.35–39; Ef 2.4–5).
“22 As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; 23 renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade.” (Lm 3.22–23).
Powlison é realista ao considerar que a dor, quando prolongada, frequentemente lança dúvidas no coração do crente acerca da presença e do amor de Deus. Nessas ocasiões, promessas vagas ou respostas simplistas não sustentam a alma; apenas o testemunho fiel da Palavra e a ação viva do Espírito Santo são capazes de manter o coração esperançoso. É justamente por essa razão que ele intitula esse capítulo, relembrando a promessa do Senhor: “Provarei meu amor até o fim da sua vida”.
“Até à vossa velhice, eu serei o mesmo e, ainda até às cãs, eu vos carregarei; já o tenho feito; levar-vos-ei, pois, carregar-vos-ei e vos salvarei.” (Is 46.4).
Essa não é uma promessa consoladora?
Especialmente quando lembramos do contexto de pecado, queda, infidelidade e dor que o povo estava experimentando. Em proporções e intensidades diferentes, essa também não é a nossa realidade? A dor se torna ainda mais aguda quando confrontada com a inconstância da nossa fé e a fragilidade da nossa esperança. Recordo-me das audaciosas e convictas afirmações de Pedro sobre o seu amor pelo Senhor Jesus, que, pouco tempo depois, se revelaram tão frágeis.
“Pela terceira vez Jesus lhe perguntou: Simão, filho de João, tu me amas? Pedro entristeceu-se por ele lhe ter dito, pela terceira vez: Tu me amas? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo […].” (Jo 21.17).
“Então, a criada, encarregada da porta, perguntou a Pedro: Não és tu também um dos discípulos deste homem? Não sou, respondeu ele.” (Jo 18.17).
Ainda assim, Pedro é amado por Deus!
O amor de Deus não é uma troca; Ele não exige a perfeição do nosso amor, e isso deve nos trazer alívio, consolo e descanso. Powlison, então, nos lembra da certeza objetiva do amor de Deus, revelado nas Escrituras e selado na cruz de Cristo.
O sofrimento pode obscurecer nossa percepção, mas não altera a realidade do caráter imutável de Deus.
Assim, as aflições, embora dolorosas, não são sinais de abandono divino; pelo contrário, frequentemente se tornam instrumentos pelos quais o Senhor realiza a Sua obra de santificação. O amor de Deus não é interrompido pelas circunstâncias; antes, torna-se ainda mais evidente quando sustentamos nossa fé mesmo sob duras provas.
O autor também nos lembra de uma distinção crucial:
O amor de Deus não se mede pela ausência de sofrimento, mas por Sua presença fiel em meio ao sofrimento.
A promessa de que Ele provará Seu amor até o fim não significa que todos os nossos sofrimentos serão removidos nesta vida, mas sim que em nenhum momento caminharemos sozinhos.
Como diz a Palavra: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo” (Salmo 23.4). Powlison apresenta esta verdade com sensibilidade pastoral, nos lembrando que o amor de Deus é um amor que acompanha, sustenta e transforma.
Outro ponto precioso do capítulo é o encorajamento para interpretar nossa experiência à luz da verdade bíblica, e não o contrário. Quando os sentimentos gritam que estamos sozinhos ou esquecidos, devemos lembrar que as promessas de Deus são mais confiáveis do que nossas emoções momentâneas.
O hino “Que firme alicerce”, mencionado em outros pontos do livro, reaparece como testemunho do Deus que declara:
“Nunca, nunca, nunca te deixarei”. Este amor perseverante é provado ao longo de toda a peregrinação da vida cristã, até o leito de morte, e continua além, na glória.
Que firme alicerce
“Sede fortes e corajosos, não temais, nem vos atemorizeis diante deles, porque o Senhor, vosso Deus, é quem vai convosco; não vos deixará, nem vos desamparará.” (Dt 31.6).
Por fim, Powlison nos conduz à contemplação da esperança futura, firmada na ressurreição de Cristo e na vida eterna. A promessa de que Deus provará Seu amor até o fim da nossa vida não termina com a morte, mas aponta para um amor que nos atravessa para além do túmulo. Cristo morreu e ressuscitou para assegurar que a separação, a dor, a doença e a morte não terão a palavra final. A graça que nos sustenta hoje é a mesma que nos apresentará irrepreensíveis diante da glória.
O amor de Deus é perseverante. O nosso desafio, como povo de Deus, é não permitir que as angústias e dores sufoquem ou obscureçam essa verdade. Nosso Senhor prometeu… “[…] E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.” (Mt 28.20).
Muito consolador, são as palavras do Senhor, para o seu povo. E temos presenciado o seu amor em nossa amada igreja, e na vida de alguns que passaram e passam pelo vale da sombra da morte.
Como é reconfortante e vigorante, vê, sentir e presenciar esse amor de Deus.
No hino do Cantor Cristão; Se Paz, a Mais Doce.
Em meios a dor e sofrimento, surge essa linda canção.
Quão maravilhoso é ter a certeza de que fomos e somos alcançados por esse amor! E melhor ainda é saber que um dia iremos conhecê-lo como somos conhecidos dEle.
Cristo morreu na cruz para nos conceder consolo e segurança nas lutas do aquém, e paz com Deus na eternidade. Todos os dias até a nossa morte devemos nos lembrar desse amor de Deus para conosco, aqueles que Ele escolheu antes da fundação do mundo!