
A Paz Ilusória
Rejeitando a Verdade para preservar a Paz de Consciência
Os relatos que antecedem o Cativeiro Babilônico do povo de Israel têm muito a nos ensinar em nossos dias. Quando, por exemplo, Jeremias é levantado para chamar a atenção do povo quanto à sua condição diante de Deus vemos um povo marcado por frieza e apostasia. Seus reis e profetas, igualmente afastados de Deus, preferiam a ignorância à Verdade. Eles se recusavam a dar ouvidos às palavras de Jeremias e, por isso, o condenavam, menosprezando totalmente a veracidade daquilo que ele anunciava.
Ao contrário do que pode parecer comum imaginar, o que antecede a queda não é o silêncio de Deus – como se o povo fosse privado da Verdade divina e, por isso, se desviasse. Pelo contrário, observamos Deus anunciando a Sua vontade prodigamente, ao mesmo tempo em que ela é obstinadamente desprezada pelo povo que a ouve.
O cenário que configura o contexto dos oráculos de Deus ao povo, por meio de Jeremias, é muito singular e ilustrativo para essa triste Verdade. Deus fala, mas o povo O despreza:
“Desde o dia em que vossos pais saíram da terra do Egito até hoje, enviei-vos todos os meus servos, os profetas, todos os dias, começando de madrugada.” (Jr 7.25)
“Eles, porém, não deram ouvidos, nem inclinaram os ouvidos, antes andaram nos seus próprios conselhos.” (Jr 7.24)
O que é ainda mais intrigante é que, nesse período, observamos pelo menos três profetas atuando como voz e testemunho da Verdade de Deus ao povo.
- Jeremias: ainda em Jerusalém, é a voz de Deus para aqueles que ainda não foram levados (Jr 25.9; 32.1);
- Daniel: levado aos palácios da Babilônia, serve como profeta para aqueles que ocupam posições privilegiadas no império da perversidade (Dn 1.3-4; 2.28);
- Ezequiel: no meio do povo escravizado e cativo, proclama enfaticamente os juízos de Deus (Ez 1.1; 2.3).

Interseção dos tempos proféticos[1]
No entanto, embora esses três profetas compartilhassem o mesmo período profético, atuaram em contextos geográficos distintos, assim como suas mensagens enfatizavam realidades teológicas diferentes, que se complementavam dentro do grande plano de Deus.
- Jeremias: chama o povo ao arrependimento e à contrição, ao mesmo tempo em que profetiza o juízo de Deus e a promessa da Nova Aliança (Jr 3.12–13; Jr 25.8–11; Jr 31.31–34);
- Daniel: é o instrumento que exalta a soberania de Deus sobre todos os reinos e impérios, antecipando o Reino de Deus que viria para destronar todos os outros (Dn 2.21; Dn 2.44; Dn 4.34–35);
- Ezequiel: anuncia a restauração do povo de Deus e o privilégio de receber um novo coração (Ez 36.24–28; Ez 37.21–23).
Esse contexto é extremamente intrigante porque, embora a verdade de Deus fosse proclamada por profetas verdadeiramente levantados como Sua voz. Contudo, isso não excluía a triste realidade da abundância de falsos profetas e de oráculos fraudulentos, provenientes de homens que falavam de si mesmos e não da parte do Senhor.
Todavia, por mais absurdo que pareça, esses falsos profetas tinham em suas mãos o coração e a aprovação do povo. Isso ocorria porque o povo escolhia abraçar mensagens que acalentavam seus corações pecaminosos, em vez de acolher a confrontação proveniente de Deus.
“Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Não deis ouvidos às palavras dos profetas que entre vós profetizam e vos enchem de vãs esperanças; falam as visões do seu coração, não o que vem da boca do SENHOR.” (Jr 23.16)
“Não mandei esses profetas; todavia, eles foram correndo; não lhes falei a eles; contudo, profetizaram.” (Jr 23.21)
“2 Filho do homem, profetiza contra os profetas de Israel que, profetizando, exprimem, como dizes, o que lhes vem do coração. Ouvi a palavra do SENHOR. 3 Assim diz o SENHOR Deus: Ai dos profetas loucos, que seguem o seu próprio espírito sem nada ter visto!” (Ez 13.2–3).
Pare por um instante e perceberá que não é difícil comparar essa triste realidade com os nossos dias. Ao olharmos para o contexto evangélico atual, encontramos as mesmas características. Há homens que realmente falam da parte de Deus, chamando ao arrependimento, anunciando o juízo e exaltando a soberania e o Reino de Deus que veio na pessoa de Cristo Jesus. Ao mesmo tempo, deparamo-nos com falsos profetas que falam de si mesmos, mas que desfrutam da apreciação de multidões.
Estudo de Caso em Jeremias
No entanto, para fins mais didáticos, vamos restringir nossa reflexão ao contexto do profeta Jeremias, ao anúncio da verdade de Deus e à rejeição dessa verdade como forma de preservar uma falsa paz de consciência. Podemos tomar os relatos do capítulo 36 de Jeremias para ilustrar que:
Quando estamos comprometidos conosco mesmos mais do que com Deus, não importa quanto Deus fale e por meio de quem Ele fale, Sua Verdade sempre encontrará barreiras para a preservação da paz de consciência que a ignorância oferece.
“1 No quarto ano de Jeoaquim, filho de Josias, rei de Judá, veio esta palavra do Senhor a Jeremias, dizendo: 2 Toma um rolo, um livro, e escreve nele todas as palavras que te falei contra Israel, contra Judá e contra todas as nações, desde o dia em que te falei, desde os dias de Josias até hoje. 3 Talvez ouçam os da casa de Judá todo o mal que eu intento fazer-lhes e venham a converter-se cada um do seu mau caminho, e eu lhes perdoe a iniquidade e o pecado.” (Jr 36.1–3).
Quando Jeremias convoca o escriba Baruque para escrever aquilo que o Senhor lhe havia dito, pois estava impedido e não podia proclamar publicamente (Jr 36.4–6). Sua intenção – como profeta de Deus – era clara:
Quem sabe, mesmo com o coração obstinado, ao ouvirem, o povo poderia ser convertido de seus maus caminhos e voltar-se para o Senhor. Afinal, essa é a expectativa de todos aqueles que são levantados por Deus para pregar a Verdade de Deus.
“Pode ser que as suas humildes súplicas sejam bem acolhidas pelo SENHOR, e cada um se converta do seu mau caminho; porque grande é a ira e o furor que o SENHOR tem manifestado contra este povo.” (Jr 36.7)
Baruque registra a mensagem e a apresenta diante das autoridades e do povo, chegando até o rei, que, ao ouvir a leitura, decide queimar o livro (Jr 36.8-11; Jr 36.21-23). Contudo, a Verdade é rejeita e a ignorância é buscada como meio de preservar uma falsa paz de consciência (Jr 36.23-25).
Na verdade, esse é justamente o propósito pelo qual Deus se revela a Jeremias, e Jeremias a Baruque, e Baruque às autoridades e ao povo. Na expectativa de que, ao ouvirem as advertências e os juízos do Senhor, diante da exposição do coração do povo (apostata), poderiam se voltar para Deus e abandonar seus maus caminhos (Jr 36.2-3; Jr 36.7). Contudo, de forma recorrente, como ecos que se intensificam, a ignorância é escolhida em lugar da Verdade de Deus.
“24 Não se atemorizaram, não rasgaram as vestes, nem o rei nem nenhum dos seus servos que ouviram todas aquelas palavras. 25 Posto que Elnatã, Delaías e Gemarias tinham insistido com o rei que não queimasse o rolo, ele não lhes deu ouvidos. 26 Antes, deu ordem o rei a Jerameel, filho de Hameleque, a Seraías, filho de Azriel, e a Selemias, filho de Abdeel, que prendessem a Baruque, o escrivão, e a Jeremias, o profeta; mas o SENHOR os havia escondido.” (Jr 36.24–26)
O rei, as autoridades e o povo preferiram a paz da ignorância. Para isso, endureceram o coração diante da proclamação da Palavra do Senhor, a ponto de condenarem à prisão o instrumento levantado por Deus para proclamar a Sua vontade ao povo. Dessa forma, fica evidente que o compromisso deles não era com o Senhor nem com a Sua verdade – apesar de afirmarem ser povo de Deus.
No entanto, em vez de a Verdade de Deus lhes trazer paz, esperança e confiança – por causa dos compromissos mundanos do seu coração –, a paz do povo era experimentada quando silenciava a voz de Deus (Is 30.10-11; Jr 6.13-14; Ez 13.10). Havia, portanto, uma rejeição deliberada à revelação divina (Is 65.2; Jr 7.24-26; Ez 2.3-5). Contudo, em contraste com essa paz aparente, o juízo que eles enfrentariam era apenas questão de tempo (Is 13.6; Jr 25.32-33; Ez 7.2-3).
Conforme vimos, essa triste realidade não ficou restrita apenas aos dias de Jeremias. O próprio Senhor Jesus Cristo, ao anunciar a chegada da Nova Aliança profetizada por Jeremias (Jr 31.31–33), denunciou aqueles cujo compromisso não era com a Verdade de Deus, mas com as motivações perversas do próprio coração. Dessa forma, eles relegavam a Palavra de Deus e exaltavam a tradição dos homens (Mt 15.7–9; Cl 2.8).
“6 Respondeu-lhes: Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. 7 E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens. 8 Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens.” (Mc 7.6–8).
O apóstolo Paulo também prenunciou o tempo em que a Verdade de Deus seria ainda mais negligenciada, a ponto de causar incômodo aos ouvidos – ou seja, a perturbação da paz ilusória. Por isso, os homens procurariam falsos mestres que pregassem de acordo com as motivações dos seus próprios corações (2Tm 4.3–4; 1Tm 4.1; 2Pe 2.1).
“1 Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios,” (1Tm 4.1)
“3 Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; 4 e se recusarão a dar ouvidos à Verdade, entregando-se às fábulas.” (2Tm 4.3–4)
Ao comentar as advertências de Paulo em 1 Timóteo 4:1, João Calvino destaca que o Espírito Santo está preparando os santos e a igreja do Senhor para falsos mestres que surgirão tudo aquilo que agrada o coração não mortificado.
“[…] falsos mestres oferecendo suas próprias invenções fúteis como se as mesmas fossem o ensino da fé, e que, ao transformar a santidade em observâncias externas, obscureceriam aquele culto espiritual devido a Deus, o qual é o único legítimo. E nesse ponto tem-se realmente travado constante batalha entre os servos de Deus e os homens tais como os descritos por Paulo aqui. Pois, visto que os homens são naturalmente inclinados à hipocrisia, Satanás facilmente os persuade, dizendo que Deus pode ser corretamente cultuado através de cerimônias, disciplinas e coisas externas.” (ênfase acrescentada)[2]
Vejam que, durante todo o período da história da redenção, assim como encontramos um remanescente fiel preservado pelo Senhor. Contudo, também somos seriamente advertidos de que haverá aqueles que, mesmo no meio do povo de Deus, rejeitam a Verdade de Deus e os instrumentos por meio dos quais essa Verdade é proclamada. Isso ocorre porque, estes últimos, estão comprometidos com os ídolos, confortos e anseios do próprio coração (1Rs 19.18; Rm 11.4–5; 2Tm 4.3–4).
“Algumas pessoas têm um fascínio sem fim por tudo, menos pela Verdade. Elas procuram e atraem para si falsos mestres.” [3]
Aqueles que rejeitam a Verdade de Deus desejam apenas a paz de se sentirem povo de Deus, ao mesmo tempo em que se deleitam nas iguarias deste mundo. Por isso, cercam-se de falsos profetas que pregam segundo a própria vontade e não expõem a perversidade de seus corações (2Pe 2.1–3).
“pois eles mudaram a Verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém!” (Rm 1.25)
“Assim diz o SENHOR acerca dos profetas que fazem errar o meu povo e que clamam: Paz, quando têm o que mastigar, mas apregoam guerra santa contra aqueles que nada lhes metem na boca.” (Mq 3.5)
“Curam superficialmente a ferida do meu povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz.” (Jr 6.14)
“Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade; põem o amargo por doce e o doce, por amargo!” (Is 5.20)
No fim, aprendemos que estes não amam a Verdade de Deus, pois buscam apenas uma paz de consciência. Paz essa que lhes permita viver confortavelmente neste mundo, desfrutando de seus prazeres sem serem confrontados quanto à perversidade do seu coração (2Ts 2.10–12; Jo 3.19–20; 1Jo 2.15–17).
“1 Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até ao ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição. 2 E muitos seguirão as suas práticas libertinas, e, por causa deles, será infamado o caminho da Verdade; 3 também, movidos por avareza, farão comércio de vós, com palavras fictícias; para eles o juízo lavrado há longo tempo não tarda, e a sua destruição não dorme.” (2Pe 2.1–3)
“10 e com todo engano de injustiça aos que perecem, porque não acolheram o amor da Verdade para serem salvos. 11 É por este motivo, pois, que Deus lhes manda a operação do erro, para darem crédito à mentira, 12 a fim de serem julgados todos quantos não deram crédito à Verdade; antes, pelo contrário, deleitaram-se com a injustiça.” (2Ts 2.10–12)
Conclusão
Esse é o grande perigo de viver uma vida sem intencionalidade para Deus e para a maravilhosa obra de Cristo Jesus (Cl 3.1–3; Ef 5.15–16). Segundo as Sagradas Escrituras, quando confessamos a fé em Cristo Jesus e professamos ter nascido de novo, está pressuposto, de forma indubitável, que fomos alistados para uma batalha cujo general é Cristo Jesus. Somos alertados de que não há descanso para a luta, pois vivemos em intenso combate para a mortificação da nossa carne e para a glória de Deus Pai Todo-Poderoso (2Tm 2.3–4; Ef 6.11–13; Rm 8.13; 1Co 10.31).
Por isso, Thomas à Kempis alertou:
“O diabo não dorme, nem a carne ainda está morta; portanto, você nunca deve cessar sua preparação para a batalha, porque à direita e à esquerda estão os inimigos que nunca descansam.”[4]
O oposto dessa realidade se torna uma grande armadilha para o cristão, pois o mundo, a carne e o diabo colocam um alvo naqueles que professam a Cristo (1Pe 5.8; Ef 2.1–3; 1Jo 2.15–17). Dessa forma, se não viverem intencionalmente para o Senhor, serão presas fáceis, pois pecados não mortificados tornam-se instrumentos nas mãos de Satanás para a própria queda, ruína e desgraça (Ef 4.22–27; Rm 8.13; Tg 1.14–15; 2Co 2.11).
Vejam… Não há dúvida quanto ao desgaste devido ao rigor, à tensão e ao cansaço envolvidos nessa intensa luta contra o pecado (Gl 5.17; 1Pe 2.11). Contudo, a paz e o descanso prometidos aos santos não serão plenamente desfrutados deste lado da eternidade. Todavia, isso não significa que a luta e o cansaço serão eternos (Hb 4.9–11; Jo 16.33).
Existe uma paz e um descanso que aguardam os santos que viveram intensamente para o Senhor (Ap 14.13; 2Tm 4.7–8).
[1] HUBBARD, S. et al. with LOGOS BIBLE SOFTWARE; KARBEL MEDIA. Faithlife Study Bible Infographics. Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2012.
[2] CALVINO, J. Pastorais. Tradução: Valter Graciano Martins. Primeira Edição ed. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2009. p. 101–102
[3] SPROUL, R. C. (ED.). The Reformation Study Bible: English Standard Version (2015 Edition). Orlando, FL: Reformation Trust, 2015. p. 2174.
[4] RITZEMA, E.; BRANT, R. (EDS.). 300 Citações da Igreja Medieval para Pregadores. Bellingham, WA: Lexham Press, 2021.