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O CRISTÃO E A POLÍTICA

O CRISTÃO E A POLÍTICA

Soberania divina, responsabilidade civil e discernimento cristão na escolha de representantes públicos

INTRODUÇÃO

No dia 22 de outubro de 2026, na Primeira Igreja Batista Reformada em Russas, Ceará, foi realizada uma roda de conversa sobre o tema O cristão e a política, motivada pela proximidade do segundo turno das eleições presidenciais brasileiras. O encontro teve como propósito refletir biblicamente sobre a responsabilidade dos cristãos diante das autoridades, os critérios que devem orientar suas escolhas políticas e a necessidade de distinguir a atuação da Igreja daquela própria do Estado.

A reflexão partiu de uma convicção fundamental: não existe nenhuma esfera da existência humana que esteja fora do senhorio de Deus. A vida espiritual, a família, o trabalho, a sociedade e a política estão debaixo de sua soberania. Por isso, a fé cristã não pode ser confinada a uma dimensão estritamente privada, como se as Escrituras não oferecessem princípios para orientar a conduta dos cristãos na sociedade.

Ao mesmo tempo, reconhecer a relevância da política não significa transformar a fé em instrumento de disputas partidárias, idolatrar candidatos ou adotar uma postura agressiva diante daqueles que pensam de maneira diferente. O desafio consiste em desenvolver convicções bíblicas firmes, exercer discernimento e agir com sabedoria, compreendendo tanto os deveres civis quanto os limites da atuação política.

A partir do Salmo 2, de Romanos 13 e da Confissão de Fé Batista de 1689, capítulo 24, podemos organizar essa reflexão em cinco eixos fundamentais.

1. A SOBERANIA DE DEUS SOBRE OS GOVERNANTES E AS NAÇÕES

O Salmo 2 foi nossa referência inicial por destacar categoricamente como os reinos da terra desconsideram Deus em seu governo e como esse poder é usurpado para afrontar a justiça divina, a ética bíblica e o povo de Deus. Sua relevância também decorre de sua posição no Saltério. Os Salmos 1 e 2 funcionam como prefácio de todo o Saltério, estabelecendo princípios fundamentais para a compreensão dos demais salmos.

No Salmo 1, vemos claramente que aqueles que não se deixam influenciar pelos ímpios e por suas narrativas, mas, ao contrário, deleitam-se em meditar na Lei do Senhor, permanecerão firmes. O Salmo 2, por sua vez, destaca que, embora os governos da terra pareçam sobrepujar o governo de Deus e sua justiça, o Senhor permanece onde sempre esteve: nas alturas, governando toda a criação. Deus ri daqueles que desconsideram sua soberania. É sobre esses princípios que os demais salmos fundamentam seus clamores e sua esperança.

O Salmo 2 apresenta a oposição dos governantes da terra que rejeitam categoricamente o Senhorio Divino. Os povos se agitam, os reis conspiram e as autoridades procuram libertar-se do domínio do Senhor e de seu Ungido. Entretanto, a rebelião humana não ameaça a soberania de Deus nem compromete o cumprimento de seus propósitos.

Por que se enfurecem os gentios e os povos imaginam coisas vãs?
Os reis da terra se levantam, e os príncipes conspiram contra o SENHOR e contra o seu Ungido. (Sl 2.1-2)

O salmo não deve ser interpretado apenas como uma descrição genérica das relações entre religião e poder político. Ele integra o enredo da redenção e aponta para o reinado do Messias, Jesus Cristo, a quem o Pai concedeu as nações por herança. Davi, em sua função real, ocupa um lugar histórico que antecipa o reinado definitivo do Filho de Deus.

A resposta divina às conspirações humanas demonstra que nenhum governante possui autonomia absoluta diante do Criador.

Ri-se aquele que habita nos céus; o Senhor zomba deles. (Sl 2.4)

Essa imagem não significa que Deus trate o sofrimento humano com frivolidade. O texto ressalta a insignificância dos projetos rebeldes quando comparados à soberania daquele que governa todas as coisas. Deus não está ameaçado pelos resultados eleitorais, pelas mudanças de governo ou pelas conspirações dos poderosos.

Essa verdade oferece estabilidade ao cristão. Independentemente de quem seja eleito, o Senhor continua reinando. Isso não significa que os resultados políticos sejam irrelevantes, pois as decisões dos governantes podem afetar a liberdade religiosa, a justiça, a segurança e as condições em que a Igreja proclama o Evangelho. Significa, antes, que nenhuma dessas circunstâncias deve ocupar o lugar da confiança que pertence exclusivamente a Deus.

O Salmo 2 também impede que os cristãos depositem esperança redentiva em candidatos ou partidos. Nenhum governante humano é o Salvador da Igreja. O reinado definitivo pertence a Cristo, e todos os poderes terrenos permanecem subordinados a ele.

Portanto, a soberania divina não conduz à passividade. Ela permite que o cristão enfrente as circunstâncias políticas com seriedade, sem desespero, sabendo que sua responsabilidade é agir fielmente, enquanto os resultados permanecem sob o governo providencial do Senhor.

2. A RELAÇÃO ENTRE FÉ E POLÍTICA

A afirmação de que religião e política não devem se misturar frequentemente nasce de uma compreensão equivocada da vida cristã. O cristão não vive exclusivamente em uma esfera espiritual separada da realidade social. Ele é uma pessoa que, tendo sido alcançada pela graça, continua vivendo em sociedade, exercendo responsabilidades familiares, profissionais e civis.

Se toda a existência está debaixo do senhorio de Deus, a política também deve ser examinada à luz dos princípios revelados nas Escrituras. Isso não significa que a Bíblia ofereça um programa partidário completo ou determine diretamente cada decisão administrativa. Significa que ela estabelece princípios morais pelos quais as propostas, as leis e a atuação dos governantes devem ser avaliadas.

Por isso, a carência de conhecimento bíblico resulta inevitavelmente em cristãos incapazes de reconhecer os pressupostos morais fundamentais das Sagradas Escrituras, à luz dos quais as políticas públicas devem ser avaliadas. Isso significa que Deus estabeleceu princípios éticos que integram o arcabouço bíblico e orientam os governantes no exercício de seus mandatos. Isso não significa, porém, que os governantes compreenderão esses princípios da mesma maneira. Para eles, podem representar pautas sociais de interesse nacional; para os cristãos, são princípios éticos e morais fundamentados na lei moral de Deus.

Quando a Igreja se omite na defesa desses princípios, deixa um espaço que pode ser ocupado por forças e ideologias contrárias ao senhorio de Cristo, contribuindo para o avanço de valores que se opõem ao seu Reino de Deus. Essas forças podem promover leis que afrontem os valores cristãos. Por isso, cristãos sem convicções bíblicas sólidas podem acabar elegendo representantes cujas decisões contribuam, futuramente, para a restrição da liberdade religiosa e até mesmo para a perseguição dos cristãos.

Entretanto, é necessário distinguir convicção de beligerância. Ter convicções firmes não significa que devemos humilhar ou ridicularizar aqueles que pensam de maneira diferente de nós. Nem toda conversa precisa ser transformada em um debate ou confronto de ideias. Somos cristãos e, como tais, devemos ser orientados por aquilo que é fundamental para o Evangelho. Dessa forma, mesmo quando participa de debates políticos, o cristão não está discutindo apenas política, mas também os fundamentos sobre os quais as leis devem ser estabelecidas, isto é, os princípios éticos e morais das Sagradas Escrituras, que expressam a vontade de Deus e estão em harmonia com o Evangelho do Senhor Jesus Cristo.

A ignorância manifesta-se quando consideramos que a esfera política está fora desse domínio. Aqueles que não são cristãos também discutem política, mas, em muitos casos, fazem isso sem o fundamento bíblico que orienta a compreensão cristã da realidade, pois ainda estão sujeitos à cegueira espiritual. Isso não significa, porém, que a verdade deva ser defendida com arrogância, prepotência ou agressividade. Pelo contrário, sua apresentação pode constituir uma oportunidade de evangelização.

O cristão, portanto, deve agir com o discernimento, a sabedoria e o entendimento espiritual que recebe do Espírito Santo, reconhecendo que, pela graça de Deus, tem o privilégio de enxergar realidades que aqueles que ainda jazem em trevas espirituais não compreendem. Ao exercer o fruto do Espírito, especialmente o domínio próprio, deve avaliar as circunstâncias e os efeitos de suas palavras, buscando construir pontes em vez de muralhas, para que a evangelização seja possível. Isso não significa ignorar que nem sempre o ambiente será propício para esse propósito.

A atuação política também deve respeitar as diferentes vocações. Um cristão pode exercer influência em sua família, na igreja, no trabalho, na universidade ou nas redes sociais. Nem todos possuem a mesma visibilidade ou o mesmo alcance. A responsabilidade consiste em utilizar fielmente os meios e as oportunidades que Deus concedeu a cada um.

Antes de publicar uma crítica ou iniciar um debate, convém perguntar:

  • Minha motivação é promover a verdade ou simplesmente ferir alguém?
  • Esta conversa poderá esclarecer alguma questão ou apenas aprofundará a hostilidade?
  • Estou preparado para argumentar com integridade e respeito?
  • Estou comprometido com a proclamação de Cristo e o Seu Evangelho ou com minha promoção pessoal?

Obviamente, essas perguntas, assim como outras que possam ser levantadas, não devem servir de justificativa para o silêncio ou a neutralidade diante da injustiça, especialmente porque nenhuma questão é verdadeiramente neutra. Escolhemos um lado ao escolher Cristo. Por isso, devemos apoiar aquilo que se aproxima da ética cristã e bíblica e discordar daquilo que dela se afasta.

Para a promoção do Evangelho, precisamos responder a essas perguntas e examinar nossas próprias motivações, a fim de assegurar que nossa defesa seja legítima e esteja fundamentada em princípios cristãos, e não em motivações pecaminosas. Portanto, a convicção e a firmeza cristãs devem ser acompanhadas de mansidão, inteligência, sabedoria e integridade.

3. A AUTORIDADE CIVIL E O SEU PROPÓSITO – ROMANOS 13

Romanos 13 oferece uma das principais passagens bíblicas para compreender a instituição e a finalidade do governo civil. Paulo escreve em um contexto no qual o poder romano exercia autoridade sobre os cristãos e, posteriormente, se tornaria instrumento de perseguição. Ainda assim, o apóstolo ensina que a autoridade civil não é independente de Deus.

Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. (Rm13.1)

A submissão às autoridades reconhece a legitimidade da ordem civil e combate a disposição de viver em permanente rebelião. Isso não equivale, porém, a afirmar que todo governante age corretamente ou que qualquer ordem política deva ser obedecida irrestritamente. A autoridade humana é real, mas permanece subordinada à autoridade suprema de Deus.

Paulo explica a finalidade dessa instituição:

Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela. (Rm 13.3)

O magistrado é apresentado como servo de Deus para o bem, encarregado de reprimir o mal e promover a ordem. O exercício da autoridade civil, portanto, deve ser avaliado em relação à justiça, à proteção dos que praticam o bem e à punição dos que praticam o mal.

Paulo prossegue:

Porque os magistrados são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço. (Rm 13.6)

Essa designação não significa que todo governante seja cristão, espiritualmente piedoso ou moralmente irrepreensível. Significa que a função civil possui uma finalidade estabelecida por Deus, independentemente da condição espiritual daquele que a exerce.

É nesse sentido que a escolha política deve ser orientada. O cristão não precisa procurar um candidato que reúna as qualificações exigidas de um pastor ou presbítero. Deve examinar se suas propostas, seus compromissos e sua atuação se aproximam dos princípios de justiça e moralidade que as Escrituras estabelecem.

A passagem também fundamenta o cumprimento dos deveres civis:

Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra. (Rm 13.7)

Observe que o próprio texto descreve o significado da sujeição mencionada por Paulo. Sujeitar-se não significa necessariamente manifestar devoção e obediência de mente e coração, mas reconhecer uma relação hierárquica e estrutural de autoridade. Trata-se de uma forma de submissão distinta daquela que devemos ao Evangelho e ao Senhor Jesus Cristo. Caso contrário, não haveria espaço para desobedecer a leis e determinações contrárias às Sagradas Escrituras.

Portanto, a responsabilidade cristã inclui obedecer às leis com as quais muitas vezes discordamos, desde que não contrariem os princípios morais do Evangelho. Submetemo-nos às autoridades legítimas, pagamos tributos e impostos, oramos pelos nossos governantes e cumprimos nossos deveres como cidadãos.

Em 1 Timóteo 2.1-2, Paulo também ordena que se façam súplicas e orações pelos reis e por todos os que exercem autoridade, com o propósito de que a comunidade cristã viva tranquila e piedosamente. A oração pelos governantes não depende de simpatia partidária. Ela expressa o reconhecimento de que o exercício da autoridade possui consequências concretas para a sociedade e para a vida da Igreja.

4. A CONFISSÃO DE FÉ BATISTA DE 1689 (XXIV) 24 E A DISTINÇÃO ENTRE IGREJA E ESTADO

A Confissão de Fé Batista de 1689, em seu capítulo 24, denominado Do Magistrado Civil, organiza a compreensão confessional da autoridade política. Seus três parágrafos tratam, respectivamente, da instituição e finalidade do magistrado, das responsabilidades relacionadas ao exercício da magistratura e dos deveres dos cristãos perante as autoridades.

Essa estrutura permite compreender que a vida pública não é estranha à fé cristã. A autoridade civil deve cumprir sua vocação de promover a justiça, enquanto os cristãos devem reconhecer suas responsabilidades tanto quando exercem funções públicas quanto quando vivem sob o governo de outras pessoas.

Um aspecto importante dessa compreensão é a distinção entre a esfera civil e a esfera eclesiástica. O Estado possui atribuições próprias, relacionadas à ordem pública e à justiça civil. A Igreja, por sua vez, recebeu de Cristo uma missão espiritual, que envolve a proclamação do Evangelho, a administração das ordenanças e o exercício da disciplina eclesiástica conforme as Escrituras.

A distinção entre essas esferas impede que o Estado assuma ou interfira no governo espiritual da Igreja, assim como impede que a Igreja confunda sua missão com o exercício da magistratura civil. Embora ambas estejam debaixo do senhorio de Deus, suas competências não são idênticas. Os critérios para o estabelecimento e a manutenção da magistratura civil possuem particularidades próprias, embora devam estar pautados por princípios morais compatíveis com aqueles que orientam a vida da Igreja. Em última instância, ambos os âmbitos estão sujeitos à autoridade de Deus, mas a intensidade e as exigências de sua aplicação são distintas.

É importante destacar, mais uma vez, que essa distinção não significa que a Igreja e os cristãos devam se abster da política e restringir sua atuação ao cenário espiritual. Foi justamente esse discurso que contribuiu para que pastores e cristãos se calassem diante das imposições e do avanço do mal na magistratura civil. Essa omissão permite que práticas injustas avancem silenciosamente e que estruturas políticas sejam progressivamente instrumentalizadas por forças contrárias aos valores cristãos, podendo, futuramente, promover a perseguição aos cristãos e dificultar a proclamação do Evangelho e o avanço do Reino de Cristo. Considerando essa realidade, Samuel Waldron destacou, de maneira contundente, que:

Restringir o cristianismo exclusivamente ao reino espiritual é, em última instância, destruí-lo.

(WALDRON, Uma Exposição Moderna da Confissão de Fé Batista de 1689. 2021. p. 337)

Ainda assim, as distinções necessárias também esclarecem uma questão decisiva para as eleições: escolher um candidato não é escolher um oficial da igreja ou um membro da igreja local. Os critérios para admissão à membresia e para o exercício de um oficialato eclesiástico não são idênticos aos critérios para o exercício da magistratura.

Uma pessoa pode não apresentar as qualificações espirituais necessárias para integrar a liderança de uma igreja e, ainda assim, ser avaliada como candidata a uma função civil. Isso não significa ignorar seus pecados, relativizar a moralidade ou aprovar indiscriminadamente sua conduta. Significa avaliar cada função segundo sua finalidade própria. Escolher um candidato para um cargo civil não equivale a aprovar todas as suas falhas e deformações morais.

A confusão entre essas esferas pode produzir exigências inadequadas, como se todo candidato precisasse demonstrar a maturidade espiritual exigida de um oficial da Igreja. O discernimento político requer outro tipo de avaliação, orientada pela finalidade da autoridade civil e pelos princípios morais das Escrituras.

5. COMO UM CRISTÃO ESCOLHE SEUS CANDIDATOS

A escolha de um candidato exige convicções, conhecimento e avaliação moral. O cristão não deve votar simplesmente por identificação emocional, por pressão social ou por fidelidade irrestrita a um partido. Tampouco deve considerar a neutralidade como uma virtude automática, pois toda escolha política envolve prioridades, valores e consequências.

É necessário examinar as propostas apresentadas, as posições defendidas, o histórico de atuação e os efeitos previsíveis das decisões de cada candidato. O objetivo não é encontrar um governante perfeito, mas discernir qual alternativa oferece melhores condições para a promoção da justiça e para a preservação de princípios compatíveis com a ética bíblica.

Nesse processo, a avaliação moral deve considerar o conjunto das propostas e suas consequências. Não basta que um candidato utilize palavras agradáveis ou apresente medidas aparentemente benéficas. É preciso examinar os pressupostos, os meios utilizados e os efeitos de suas políticas, tendo sempre em vista as leis e os princípio bíblicos.

Novamente, não devemos pressupor que escolher determinado candidato signifique endossar todos os seus erros. O voto é uma decisão política delimitada, não uma declaração de aprovação integral da vida de alguém. Isso não elimina a responsabilidade moral do eleitor, mas impede que a escolha seja confundida com adesão pessoal irrestrita.

A ética bíblica resguarda o bem maior, apontando para a necessidade de ponderar os princípios morais envolvidos e as consequências concretas das alternativas disponíveis para o alcance de toda a humanidade. Por isso, o cristão, não pode, em hipótese alguma, abandonar a ética bíblica em favor de um cálculo utilitarista ou assistencialismo, mas avaliar qual opção se aproxima mais dos bens que devem ser promovidos e quais danos podem ser evitados.

Outro aspecto indispensável é a prudência na comunicação. A exposição excessiva a conteúdos políticos, especialmente quando acompanhada de informações imprecisas, acusações e hostilidade, pode perturbar a mente e o coração. O cristão precisa reconhecer quando o consumo de notícias deixou de contribuir para o discernimento e passou a alimentar ansiedade, irritação ou dependência emocional.

Novamente, nenhum candidato deve ocupar o lugar que pertence a Deus. O resultado eleitoral não determina a esperança última da Igreja. Por isso, é possível participar ativamente da vida pública sem transformar a política em uma espécie de projeto de salvação.

A influência cristã também depende do seu testemunho. Uma pessoa que deseja persuadir outras deve demonstrar respeito, integridade e domínio próprio. O debate que não produz esclarecimento, que se baseia em acusações pessoais ou que se transforma em disputa de ego pode ser encerrado com sabedoria. A firmeza não exige que todas as discussões sejam prolongadas.

Por fim, as convicções precisam ser suficientemente sólidas para resistir a pressões sociais, vantagens materiais e ameaças profissionais. A liberdade de consciência não elimina as consequências das decisões, mas exige que o cristão não negocie seus princípios por conveniência. Quando a fidelidade a Deus produzir perdas, o cristão deve enfrentá-las com coragem, prudência e confiança na providência divina.

SÍNTESE DE PRINCÍPIOS PARA ELEIÇÃO

A partir da reflexão, os seguintes princípios podem orientar o discernimento eleitoral:

  1. Soberania de Deus: reconhecer que todos os governos estão debaixo do senhorio divino e que nenhum resultado eleitoral pode ocupar o lugar da confiança em Deus.
  2. Compatibilidade moral: examinar as propostas, os compromissos e as posições dos candidatos à luz dos princípios éticos das Escrituras.
  3. Finalidade da autoridade civil: avaliar se o candidato demonstra compromisso com a justiça, a proteção dos que praticam o bem e a responsabilização daqueles que praticam o mal.
  4. Distinção entre as esferas: não exigir de um candidato as mesmas qualificações espirituais requeridas de um oficial ou membro da igreja, sem abandonar a avaliação moral de sua conduta.
  5. Análise das consequências: considerar os efeitos previsíveis das propostas e das decisões políticas, ponderando os bens que podem ser promovidos e os males que podem ser evitados.
  6. Independência partidária: não transformar partidos ou candidatos em objetos de lealdade absoluta, nem assumir todos os seus erros por ter escolhido uma determinada opção.
  7. Firmeza sem agressividade: sustentar convicções claras sem recorrer à humilhação, à desonestidade, à ridicularização ou à hostilidade desnecessária.
  8. Discernimento na comunicação: avaliar a motivação, a oportunidade e a utilidade dos debates, evitando conflitos que não contribuem para a verdade ou para o testemunho cristão.
  9. Resistência à conveniência: não negociar convicções morais em troca de benefícios, vantagens profissionais ou aceitação social.
  10. Responsabilidade civil: votar conscientemente, cumprir os deveres legais, respeitar a autoridade legítima e orar por aqueles que governam.
  11. Equilíbrio espiritual: acompanhar os acontecimentos políticos sem permitir que a ansiedade, o medo ou a idolatria partidária dominem o coração.
  12. Testemunho coerente: buscar credibilidade por meio de uma vida marcada pela integridade, pelo respeito e pela fidelidade às Escrituras.

CONCLUSÃO: SAL E LUZ NO MUNDO

A responsabilidade política do cristão decorre de seu compromisso com o senhorio de Jesus Cristo. Se toda a existência pertence a Deus, a vida civil não pode ser tratada como uma área moralmente neutra, na qual as convicções bíblicas devem ser abandonadas. Ao mesmo tempo, a participação política precisa permanecer subordinada à esperança cristã, sem transformar candidatos, partidos ou governos em instrumentos de redenção.

Ser sal e luz significa exercer uma influência que contribua para a preservação do bem, a exposição do mal e a promoção de uma conduta coerente com a verdade. Essa responsabilidade pode ser exercida por meio do voto, da oração, da formação de convicções, do trabalho, da vida familiar, da participação social e do testemunho pessoal.

Não cabe a todos exercer a mesma influência, nem todas as circunstâncias exigem a mesma forma de manifestação. Cabe a cada cristão discernir sua vocação, utilizar os meios que possui e agir com coragem e sabedoria. O silêncio motivado pelo medo não deve ser confundido com prudência, assim como a agressividade motivada pelo orgulho não deve ser confundida com fidelidade.

A distinção entre Igreja e Estado também precisa permanecer clara. A Igreja não deve abandonar sua missão espiritual para se transformar em instrumento partidário, nem o cristão deve imaginar que a escolha eleitoral corresponde à escolha de um oficial eclesiástico. As duas esferas possuem responsabilidades distintas, embora ambas estejam debaixo da autoridade de Deus.

Por fim, os deveres civis são parte da responsabilidade que o Senhor nos concedeu. Participar das eleições, respeitar as autoridades legítimas, cumprir as obrigações legais, orar pelos governantes e defender o bem comum são expressões concretas de uma cidadania exercida diante de Deus.

O cristão pode, portanto, participar da política com convicção, sem idolatria; com firmeza, sem arrogância; com prudência, sem covardia; e com esperança, sem desespero. Independentemente de quem governe, sua vocação permanece: glorificar a Deus, testemunhar a verdade e servir ao próximo, confiando que Jesus Cristo continua sendo o Rei dos reis e o Senhor de toda a criação.

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