
A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E O PECADO
INTRODUÇÃO
Esse breve artigo é uma síntese de uma reflexão bíblica proveniente da exposição do livro de Provérbios, cujo tema da série: Sabedoria que Guarda o Coração. Foi ministrada em 8 de dezembro de 2024, na PIB Reformada em Russas, CE. Nesse recorte da exposição, nos voltamos para um assunto que ocupa cada vez mais espaço nas conversas cotidianas, o avanço acelerado da Inteligência Artificial. Diante dessa realidade, é proposta uma pergunta que ultrapassa o campo técnico, chegando ao terreno espiritual: O que esse avanço revela sobre o próprio coração do homem?
Antes de tudo, é importante descartar a ideia de que o homem poderia produzir algo superior àquilo que Deus criou. Uma vez que nenhuma obra das mãos humanas seria capaz de superar a excelência da obra do Criador – de quem o homem é imagem e semelhança. O ponto central de nossa reflexão, contudo, não está no temor de uma tecnologia que ameace substituir a humanidade, mas no risco de que essa mesma tecnologia ofereça, com facilidade cada vez maior, exatamente aquilo que a natureza pecaminosa do homem deseja: conforto, comodidade e dispensa de esforço (Pv 6.6-11; 2Ts 3.10-12).
Portanto, gostaria de oferecer algumas perspectivas sóbrias sobre como devemos observar os inevitáveis avanços tecnológicos do nosso tempo à luz da sabedoria bíblica, considerando, sobretudo, a soberania de Deus, que se estende por toda a criação, e sua santa providência, que governa todas as coisas segundo os seus propósitos e para a sua glória (Sl 103.19; Pv 16.4, 9; At 17.24-26; Rm 11.36; Ef 1.11).
“9 Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; 10 que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade;” (Is 46.9–10).
O TEMOR INSENSATO
É comum ouvir, nas conversas do dia a dia, preocupações sobre o avanço da Inteligência Artificial. No entanto, é preciso reconhecer como insensato o temor de que o homem venha a criar algo superior àquilo que Deus criou. A criatura jamais conseguirá produzir algo melhor do que o próprio Criador, nem tornar a humanidade obsoleta, pois foi Deus quem formou o homem à sua imagem e semelhança, não havendo nada mais belo e grandioso do que essa obra (Sl 8.3-6). Pensar que a criatura chegaria ao ponto de criar algo melhor e mais grandioso do que o Criador é, portanto, um raciocínio sem fundamento ou, no mínimo, incrédulo.
A ARMADILHA
Veja, ainda que a Inteligência Artificial não torne a humanidade obsoleta no sentido de substituí-la, ela tende a torná-la mais acomodada, justamente por oferecer tudo aquilo que o coração humano deseja, facilidade e conforto. Cada vez menos pessoas se dedicam a aprender um novo idioma, uma vez que um simples fone de ouvido já oferece tradução simultânea. Da mesma forma, diminui o interesse pela leitura integral de uma obra, ou mesmo, pela elaboração de resenhas próprias, já que resumos prontos podem ser obtidos com poucos cliques. O mesmo ocorre com anos de estudo dedicados a uma formação superior, quando um trabalho de conclusão de curso pode ser produzido com o auxílio da Inteligência Artificial. É exatamente nesse ponto que a IA contribui para o enfraquecimento intelectual do ser humano, entregando-lhe aquilo que a sua natureza pecaminosa tanto almeja.
“6 Vai ter com a formiga, ó preguiçoso, considera os seus caminhos e sê sábio. 7 Não tendo ela chefe, nem oficial, nem comandante, 8 no estio, prepara o seu pão, na sega, ajunta o seu mantimento. 9 Ó preguiçoso, até quando ficarás deitado? Quando te levantarás do teu sono? 10 Um pouco para dormir, um pouco para tosquenejar, um pouco para encruzar os braços em repouso, 11 assim sobrevirá a tua pobreza como um ladrão, e a tua necessidade, como um homem armado.” (Pv 6.6-11).
Essa busca constante por conforto revela uma dinâmica espiritual mais profunda. Da mesma forma que alguém deixa de se exercitar, se alimenta sem disciplina ou permanece na inércia e na preguiça em nome do conforto, o ser humano tende a abrir brechas diante da tecnologia. Ele constrói justificativas para abraçar essa mesma comodidade, sendo a produtividade um dos principais argumentos utilizados. Contudo, o efeito real costuma ser o oposto do prometido, gerando mais preguiça e ociosidade. É nesse sentido que a Inteligência Artificial tende a colocar poucas pessoas no topo, aquelas que produzem e estão por trás de seu desenvolvimento. Enquanto isso, a grande massa da humanidade se torna, na prática, uma espécie de marionete.
A PREPOTÊNCIA E A ESCRAVIDÃO TECNOLÓGICA
Há, nesse cenário, algo que merece ser encarado como um insulto: a ideia de que a Inteligência Artificial saberia mais do que o próprio homem. Sendo o homem quem a produziu, é uma grande prepotência supor que ela deveria ser utilizada apenas por preguiça ou em busca de conforto pessoal. Esse deveria ser também um momento de autoavaliação para a Igreja. Existe um tipo de escravidão da produtividade e do engajamento que também atinge a igreja local. Em nosso tempo, é fácil considerar que relevância e propósito estão intrinsecamente ligados àquilo que é produzido e publicado nas mídias sociais.
Dessa forma, precisamos observar com precisão o quanto desejamos facilidade e como podemos utilizar a tecnologia sob esse argumento. Nesse sentido, até mesmo as horas necessárias à elaboração intelectual podem ser substituídas pela escravidão da facilidade, do conforto e da comodidade, características que a tecnologia está pronta para satisfazer, ao custo de transformar aquele que as busca e dela se utiliza em uma espécie de subserviente a ela.
“[…] a IA não possui verdadeira inteligência, visto que esta é uma propriedade dos organismos. Tampouco pode ser considerada completamente artificial, dada sua dependência da criatividade e do intelecto humano.”
Miguel Nicolelis – neurocientista
Esse mecanismo de escravização é, em essência, o grande artifício do marketing, que consiste em criar necessidades que passam a fazer parte indispensável da vida das pessoas. Um exemplo simples ilustra bem esse ponto: quando o WhatsApp sai do ar por algumas horas, no dia seguinte já circulam notícias sobre os prejuízos milionários sofridos por empresas e negócios. Criar necessidades e transformá-las em parte essencial da existência é, portanto, o que gera dependência, e é justamente por meio dessa dependência que o ser humano acaba fisgado.
Por causa da própria pecaminosidade humana, a Inteligência Artificial e outros mecanismos sobre os quais não se tem controle acabam, ao contrário, controlando o homem. Nada deveria exercer esse domínio sobre a vida do crente, pois o controle sobre todas as coisas deve permanecer nas mãos do próprio homem, sem que nada o conduza a uma dependência da qual não consiga viver sem (1Co 6.12; 1Co 10.23-24; Gl 5.1, 13). Isso não significa abrir mão do uso legítimo da tecnologia, da Inteligência Artificial e dos meios de comunicação, mas recusar-se a permitir que essas ferramentas assumam a ousadia de escravizar, julgando-se no controle da produtividade, do desempenho e da própria vida de quem as utiliza. É precisamente nesse ponto que a tecnologia passa a assumir características que pertencem somente a Deus, como a onipresença e a onipotência.
A GERAÇÃO DO CONFORTO
Essa realidade expõe, de modo particular, a pecaminosidade da geração atual, marcada pelo desejo de enriquecer sem muito esforço. O objetivo, na verdade, é alcançar uma condição em que já não seja necessário trabalhar. Diante disso, a promessa de viver de renda, amplamente difundida nas redes sociais, apresenta-se como expressão de liberdade e realização pessoal. Porém, essa realidade alimenta uma disposição interior que associa o trabalho a algo ruim do qual não podemos fugir. Quando deveríamos reconhecê-lo como parte de nossa vocação e responsabilidade diante de Deus.
Essa mentalidade encontra terreno fértil justamente porque apela aos desejos pecaminosos mais profundos do coração humano. Ela oferece a possibilidade de alcançar conforto, autonomia e abundância sem o peso das responsabilidades ordinárias. O problema não está, necessariamente, no desejo de prosperar ou de alcançar determinada “estabilidade” financeira. Está, sim, na disposição de fazer dessas coisas o objetivo maior da existência. Assim, a era do falseamento e da hipocrisia também alcança essa dimensão da vida. Apresenta como liberdade aquilo que, muitas vezes, apenas revela novas formas de escravidão aos desejos.
APLICAÇÕES
- O crente é chamado a manter o controle sobre o uso da tecnologia e da Inteligência Artificial, em vez de permitir que essas ferramentas controlem a sua produtividade, o seu desempenho e a sua rotina;
- É necessário também vigiar o próprio coração diante da busca por facilidade, conforto e comodidade, reconhecendo, nesse desejo, uma inclinação pecaminosa que precisa ser combatida, e não simplesmente satisfeita;
- Da mesma forma, cabe discernir os mecanismos de marketing que criam necessidades artificiais, avaliando com cuidado o que realmente é indispensável e o que apenas gera dependência, para que nada além do próprio Deus ocupe o lugar de algo do qual não se pode viver sem.
CONCLUSÃO
A igreja precisa refletir sobre um tema que, à primeira vista, parece apenas avanço tecnológico, mas que, no fundo, possui profundas implicações e espirituais. A Inteligência Artificial, como qualquer outra ferramenta, não é o problema em si, mas pode se tornar um instrumento a serviço das inclinações pecaminosas do coração humano. Faz parte da natureza caída do homem buscar facilidade, conforto e a comodidade como fins últimos. Cabe ao crente vigiar o próprio coração, discernir os mecanismos que criam dependência e manter o domínio sobre o uso da tecnologia, para que nada, além de Deus, exerça sobre a sua vida um controle do qual não se possa livrar.
Sem dúvida alguma, esse é um tema não somente necessário, mas que deve estar presente na instrução do nosso lar. Seja durante as aplicações no culto doméstico, seja sentados em uma calçada, nossos filhos estão entre os mais expostos a esse avanço tecnológico. Por isso, precisam ser instruídos quanto aos obstáculos que essas ferramentas podem representar para o desenvolvimento intelectual. Como crianças e jovens, são naturalmente propensos a derrubar barreiras em busca de facilidade. Por isso, precisam ser ensinados quanto aos perigos e às consequências futuras de descartar aquilo que, em um primeiro momento, parece enfadonho e difícil. No fim, porém, essa dificuldade produzirá bons frutos.
DICAS PRÁTICAS
- Manta o controle sobre o uso da tecnologia e da Inteligência Artificial, sem permitir que elas controlem a produtividade, o desempenho ou a rotina de vida – não viva na dependência de algo que não pode controlar.
- Usufrua da tecnologia, da Inteligência Artificial e dos meios de comunicação de forma legítima, sem permitir que assumam a posição de algo do qual não se pode viver sem.
- Observe como o marketing cria necessidades artificiais e avalie, com discernimento, o que realmente é indispensável.
- Reconheçar, na busca constante por facilidade, conforto e comodidade, uma inclinação pecaminosa que deve ser combatida, e não simplesmente satisfeita.