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O SOFRIMENTO NÃO É RACIONAL

O SOFRIMENTO NÃO É RACIONAL

Este artigo é baseado na obra “A Soberania de Deus no Sofrimento: uma análise pastoral do drama de Jó”, de autoria do autor, atualmente em fase editorial e ainda não publicada.

INTRODUÇÃO

Este artigo é uma breve apresentação do livro que analisa pastoralmente o drama de Jó. Trata-se do resultado de uma pequena série de sermões pregados em nossa igreja local.[1] O tema principal concentra-se em duas realidades bíblicas: a Soberania de Deus e o Sofrimento Humano. No desenvolvimento da obra, esse tema é dividido em quatro subtemas: primeiro, o sofrimento não é racional; segundo, o sofrimento insulta a nossa fé; terceiro, qual é o verdadeiro consolo no sofrimento; e, por fim, Deus é o Senhor do sofrimento e da vida. No presente artigo, será apresentada uma síntese do primeiro ponto: o sofrimento não é racional.

O LIVRO DE JÓ: HISTÓRIA E ESTRUTURA

“Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal.” (Jó 1.1).

Há pouca literatura que aprofunde com precisão a época em que Jó viveu e em que o livro foi escrito. Possivelmente, o nome Jó significa “onde está o meu pai”. Fora do próprio livro, o personagem é citado apenas em Ezequiel 14 e Tiago 5. Quanto à autoria, alguns consideram Moisés, que viveu por volta de 1500 a.C., ou Salomão, por volta de 970 a.C., supondo que a história tenha sido transmitida oralmente até ser registrada por escrito. O tempo de Jó é situado antes de Abraão, provavelmente cerca de 2500 a.C., numa era pré-patriarcal, conforme indica a linguagem patriarcal do texto. Apesar das incertezas quanto à autoria e à data, um fato permanece indiscutível entre estudiosos conservadores e ortodoxos: Jó é um relato histórico.

O saudoso Carlos Osvaldo Cardoso Pinto estruturou o livro de forma sintética em três partes: “A Tragédia de Jó (caps. 1 e 2); O Trauma de Jó (caps. 3.1–42.6) e O Triunfo de Jó (42.7–17)”.[2] O livro apresenta um narrador, os três amigos de Jó, Elifaz, Zofar e Bildade, um jovem chamado Eliú – que aguarda os demais falarem por reconhecer sua pouca idade –, a mulher de Jó, que fala apenas uma vez, e o próprio Deus.

OS INCESSANTES PORQUÊS DE JÓ

Nos 42 capítulos e 1.070 versículos do livro, encontram-se 564 questionamentos distribuídos em 258 versículos, quase todas perguntas retóricas que não exigem respostas. Observe, por exemplo:

“[…] temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal? […]”. (Jó 2.10)

“Por que não morri eu na madre? Por que não inspirei ao sair dela?” (Jó 3.11)

“Por que esperar, se já não tenho forças? Por que prolongar a vida, se o meu fim é certo?” (Jó 6.11).

Esses porquês se repetem sob diferentes formas ao longo de todo o livro. Não parecem esperar resposta; são a maneira de Jó enfatizar sua dor, sua agonia, seu desespero, numa tentativa de compreender o motivo do próprio sofrimento. O livro, contudo, nunca lhe responde, mesmo quando o próprio Deus fala. O tema central de Jó não é propriamente o sofrimento, mas aquilo que Jó aprende com ele, algo que só será revelado a partir do capítulo 39: a Soberania de Deus é incompreensível e inescrutável, e nisso devemos descansar.

A CAUSA DO SOFRIMENTO QUE JÓ NUNCA CONHECEU

É concedida ao leitor uma visão privilegiada do drama de Jó. Ele tem acesso a toda a linha do tempo de Jó, aos relatos e aos acontecimentos misteriosos, informações que nunca foram reveladas a Jó, acontecimentos aos quais ele jamais teve acesso. Isso é claramente percebido logo no início do drama, como uma forma de Deus nos ensinar que, diante dos inevitáveis questionamentos acerca do sofrimento, a fé é a resposta e a solução, e não o entendimento do porquê experimentamos tais dores e angústias.

Observe, por exemplo, alguns dos primeiros acontecimentos misteriosos desse drama. Deus pergunta a Satanás:

“[…] Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal.” (Jó 1.8)

Satanás não questiona as qualidades de Jó apresentadas por Deus; ele, na verdade, insulta a honestidade de Deus como governador do mundo, sugerindo que a piedade de Jó é interesseira:

10 Acaso, não o cercaste com sebe, a ele, a sua casa e a tudo quanto tem? A obra de suas mãos abençoaste, e os seus bens se multiplicaram na terra. 11 Estende, porém, a mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face.” (Jó 1.10–11).

Então, Deus exerce sua soberania e concede acesso a Satanás, mas estabelece limites precisos, repetidos nas duas rodadas de provação, poupando a vida de Jó em ambas (Jó 1.12; Jó 2.6). A causa do sofrimento de Jó é, portanto, clara:

Jó sofre precisamente por ser íntegro e reto, alvo do insulto de Satanás contra Deus, e não por pecado oculto.

A MULHER DE JÓ E O ABANDONO DA ESPERANÇA

O relato sobre a mulher de Jó é bastante intrigante e pedagógico. Veja que, depois de perder bens e filhos, restou a Jó apenas a esposa, mas ela não lhe trouxe consolo. No entanto, diante de tamanha experiência de desgraça e dor, as únicas palavras dela ao marido foram como grilhões em seu coração e em sua fé. Ela dispara:

“[…] Ainda conservas a tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre.” (Jó 2.9).

O sentido de suas palavras pode ser entendido como “despede-te da tua fé e morre”, pois, para ela, não havia motivo para permanecer íntegro quando nada mais restava. Embora ela fale apenas essa vez no livro, a menção que Jó faz dela mais adiante não altera o relato sobre sua postura, pois ele destaca o seu distanciamento e oposição, afirmando que até o seu hálito lhe é repulsivo, expressão que indica um afastamento que já não é provisório, mas definitivo.

Como explicar tal postura? O mais comum é observar as esposas tão próximas e defensoras de seus maridos, a ponto de, até mesmo, esconder ou defender os seus pecados. Em vez de ser para Jó um instrumento de graça e consolo, um dom de Deus, como diziam os puritanos, sua esposa foi como um dardo inflamado do inimigo, aumentando sua angústia e sua dor.

O SOFRIMENTO NÃO TEM PADRÃO

É preciso destacar que a história de Jó não deve ser tomada como um paradigma para todo o sofrimento humano; o livro não estabelece que todo sofrimento decorra de um insulto de Satanás contra Deus referente a seus santos. O sofrimento não tem compromisso com a razão, nem com um esboço, um escopo ou uma estrutura fixa. Ele simplesmente acontece, em proporções e intensidades completamente diferentes de pessoa para pessoa, de casa para casa, de família para família. O sofrimento não é racional.

11 Vi ainda debaixo do sol que não é dos ligeiros o prêmio, nem dos valentes, a vitória, nem tampouco dos sábios, o pão, nem ainda dos prudentes, a riqueza, nem dos inteligentes, o favor; porém tudo depende do tempo e do acaso. 12 Pois o homem não sabe a sua hora. Como os peixes que se apanham com a rede traiçoeira e como os passarinhos que se prendem com o laço, assim se enredam também os filhos dos homens no tempo da calamidade, quando cai de repente sobre eles.” (Ec 9.11–12).

A questão, portanto, em nossa preparação para o encontro com o sofrimento, não diz respeito a conhecer os seus caminhos, estruturas ou meios, para que não sejamos surpreendidos. A questão é, como o sofrimento nos encontrará: se dependentes e confiantes em Deus –  não condicionados às circunstâncias –, ou como aqueles que colocam nas circunstâncias a sua felicidade e o seu consolo.

O SOFRIMENTO INCOMPREENSÍVEL DE CRISTO

Nem mesmo o sofrimento do Senhor Jesus se restringe aos limites da nossa razão para que o entendamos. O brado do Senhor no jardim da dor diz muito mais sobre a sua integridade, santidade e inocência do que sobre o seu sofrimento:

“[…] Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua.” (Lc 22.42)

O que observamos, logo em seguida, é o surgimento de um anjo do céu para confortá-lo, diante de tão profunda agonia, ao ponto de seu suor ser como gotas de sangue caindo sobre a terra (Lc 22.43-44).

Assim como em Jó, observamos limites. Aquele momento não foi o fim dos propósitos de Deus para a vida do nosso Senhor. Ele viveria um pouco mais para ser um instrumento valioso nas mãos do nosso soberano Senhor e Deus. Ainda assim, entenda:

Mesmo que a nossa vida seja poupada, isso não significa que a agonia será retirada.

APLICAÇÕES

A Escritura não nos chama a buscar alívio nas respostas que julgamos merecer, mas a viver a esperança em meio à dor. Pedro exorta:

14 Mas, ainda que venhais a sofrer por causa da justiça, bem-aventurados sois. Não vos amedronteis, portanto, com as suas ameaças, nem fiqueis alarmados; 15 antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós,” (1Pe 3.14–15).

Pedro não está simplesmente nos exortando a acumular conhecimento para uso apologético. Ele está conclamando os cristãos a viver a esperança em meio à luta e à perseguição, tomando o sofrimento como um instrumento de refinamento da fé.

Paulo, completa essa reflexão, nos ensinando a olhar a dor, não com os olhos da carne, mas com os da fé. Isso porque são os olhos da fé que nos permitem enxergar aquilo que apenas os santos veem:

17 Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, 18 não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas.” (2Co 4.17–18).

CONCLUSÃO

Quem disse que entender o sofrimento o torna mais suportável? Jó aprendeu, ao final do seu drama, que não precisava entender para descansar. Somos chamados a confiar, não a compreender cada ponto e vírgula de nossa dor. Um comentarista puritano do século XVII, escrevendo sobre o ser de Deus, disse:

“A presença do Senhor é infinita; seu brilho, insuportável; sua majestade, terrível; seu domínio, ilimitado; sua soberania, incontestável” (Matthew Henry)

Aquele que “Tem no seu manto e na sua coxa um nome inscrito: REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES” (Ap 19.16), nunca abandona os seus, ainda que use meios que muitas vezes não compreendemos para nos ensinar e nos manter juntos a ele. Descansamos chorando, descansamos gemendo, mas descansamos, porque sabemos quem é o nosso Senhor (Sl 46.1–3; Sl 62.1–2; 2Co 4.16–18; 1Pe 1.6–9).


[1] Primeira Igreja Batista Reformada em Russas – CE.

[2] PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco & desenvolvimento no Antigo Testamento. 2. ed. rev. e atual. São Paulo: Hagnos, 2014, p. 434.

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