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O DEVER DE ORAR PELO PRÓXIMO

O DEVER DE ORAR PELO PRÓXIMO

Reflexão desenvolvida a partir do esboço do sermão ministrado em 28 de dezembro de 2025, na Primeira Igreja Batista Reformada em Russas, CE.

Existem muitas características essenciais ao povo de Deus (1Pe 2.9). Dentre elas, destaca-se o profundo senso de responsabilidade para com os da fé (Gl 6.10). Trata-se da responsabilidade não apenas de olhar para a própria vida, para suas necessidades e anseios, mas também do entendimento profundo de que, por fazer parte do povo de Deus como um corpo integral, o seu bem-estar consiste necessariamente no bem-estar do próximo (Fp 2.4, 1Co 12.26). Isso nos conduz, como crentes em Cristo Jesus, a cuidar e a pastorear uns aos outros, para que a saúde espiritual da qual desfrutamos seja igualmente refletida na vida daqueles com quem compartilhamos a fé (Jo 13.34–35, Hb 10.24–25, 1Pe 5.2).

Essa responsabilidade intencional e compartilhada torna-se ainda mais evidente e visível quando fazemos parte da membresia de uma igreja local. Essa propriedade essencial pode ser percebida por meio do pastoreio mútuo, à medida que as mutualidades bíblicas são experimentadas e exibidas em uma comunidade de fé local (At 2.42–47, Rm 12.4–5, Gl 6.1–2, Hb 10.24–25).

No entanto, essa responsabilidade, como propriedade distintiva dos crentes, não é percebida apenas na Nova Aliança em Cristo Jesus, mas constitui um traço característico do povo de Deus desde os seus primórdios. Isso pode ser observado, por exemplo, na figura de Samuel, que, mesmo contrariado com o pecado e a obstinação do povo de Israel, reconhece em si um profundo senso de dívida e responsabilidade em interceder por aquele povo.

19 Todo o povo disse a Samuel: Roga pelos teus servos ao Senhor, teu Deus, para que não venhamos a morrer; porque a todos os nossos pecados acrescentamos o mal de pedir para nós um rei. 20 Então, disse Samuel ao povo: Não temais; tendes cometido todo este mal; no entanto, não vos desvieis de seguir o Senhor, mas servi ao Senhor de todo o vosso coração. 21 Não vos desvieis; pois seguiríeis coisas vãs, que nada aproveitam e tampouco vos podem livrar, porque vaidade são. 22 Pois o Senhor, por causa do seu grande nome, não desamparará o seu povo, porque aprouve ao Senhor fazer-vos o seu povo. 23 Quanto a mim, longe de mim que eu peque contra o Senhor, deixando de orar por vós; antes, vos ensinarei o caminho bom e direito. 24 Tão somente, pois, temei ao Senhor e servi-o fielmente de todo o vosso coração; pois vede quão grandiosas coisas vos fez. 25 Se, porém, perseverardes em fazer o mal, perecereis, tanto vós como o vosso rei.” (1 Samuel 12.19–25).

O contexto dessa passagem é o discurso de despedida do profeta Samuel. O povo havia pecado ao pedir um rei, desejando ser como as demais nações, rejeitando assim o governo de Deus sobre eles. O profeta Samuel não apenas apresenta a sua despedida, mas, como cena final, externaliza sua compreensão de responsabilidade para com o povo de Deus, e essa disposição constitui, ao mesmo tempo, a sua exortação.

Necessidade de Intercessão

Vejam… o povo de Israel teme a mão pesada de Deus sobre eles. Eles reconhecem que erraram, mesmo que o arrependimento seja ainda mais evidente pelo temor experimentado. Eles busca Samuel e exclamam: “Roga pelos teus servos”. É interessante observar que uma das características do pecado é justamente o senso de ruptura com Deus. A sensação de profundo distanciamento do Senhor. É isso que o povo percebe diante do pecado cometido (Is 59.2, Sl 51.11). Por essa razão, busca Samuel, um homem devoto ao Senhor, em comunhão e intimidade com Ele, para que Samuel faça aquilo que, naquele momento, o povo sentia não poder fazer, clamar a Deus por sua misericórdia e por sua graça, apesar da dureza de seus corações (1Sm 12.19–23, Jr 17.9).

Ainda que o temor experimentado pelo povo decorra do medo da justa ira de Deus, é bastante característico o fato de clamarem por livramento, misericórdia e graça. Mais interessante ainda é o destaque dado ao poder da oração como instrumento de livramento, como instrumento redentivo e como meio de graça concedido por Deus, o qual não é negligenciado nem mesmo por um povo marcado pelo pecado.

Diante disso, um fator ainda mais impressionante é a pronta disposição do profeta, não apenas em repreender ou tornar ainda mais evidente o pecado manifesto, mas também em interceder graciosamente por um povo que o rejeita e que rejeita o seu Senhor.

Isso demonstra que a oração não está vinculada a sentimentos, afinidades ou emoções, mas à convicção do poder da intercessão e à responsabilidade de utilizar esse poder concedido por Deus para o bem do outro.

A disposição do profeta não é a de nutrir rancor, regar a mágoa ou fertilizar o sentimento de rejeição (Pv 20.22, Rm 12.19). Ainda que experimente tristeza devido ao abandono pelo desprezo do povo para com ele, o que, na verdade, revelava o desprezo para com o próprio Deus (1Sm 8.7, 1Sm 12.17). Apesar disso, o profeta não permite que seja nublada sua responsabilidade de ser um instrumento de graça para a restauração e para a aproximação do povo com Deus (1Sm 12.23, 2Co 5.18–20).

Samuel não diz: “Agora que vocês estão sofrendo, vocês vêm me pedir ajuda? Vocês não quiseram um rei? Então peçam ao rei!”. Não… mesmo ferido, o coração de Samuel é de um intercessor.

A Oração como um Dever e não uma Opção

O ponto central dessa reflexão está no versículo 23. Samuel diz algo que deveria estremecer o nosso coração e nos fazer repensar a nossa vida de oração.

Ele diz: “Quanto a mim, longe de mim que eu peque contra o Senhor, deixando de orar por vós […].”

Vejam isso… Samuel não considerava a oração pelo próximo apenas como uma cortesia cristã ou um favor que ele fazia ao povo. Ele considerava a falta de intercessão como um pecado contra o próprio Deus. Nós costumamos classificar pecados como a mentira, o adultério, o roubo, a idolatria… Mas raramente colocamos a “falta de oração pelo próximo” na nossa lista de pecados factuais.

Samuel está dizendo: “Se eu parar de orar por vocês, eu estarei pecando contra o meu Senhor”. Por que isso?

“Porque a oração intercessória é a profunda demonstração de amor ao próximo (1Sm 12.23, Jó 42.10). Deixar de orar é deixar de amar (Tg 5.16, 1Jo 3.18). E deixar de amar é transgredir o maior de todos os mandamentos (Mt 22.37–40, Rm 13.8–10).

Portanto, a prática da oração deve ser observada pelo cristão porque é um mandamento divino (Lc 18.1, 1Ts 5.17). A oração não é um conselho, nem mesmo uma dica, a oração é um mandamento (Cl 4.2). O próprio Senhor Jesus Cristo ordenou isso diversas vezes, assim como Seus Apóstolos (Mt 6.9, Lc 22.40, Ef 6.18).

Em diversas ocasiões em que Jesus ordenou a prática da oração… Ele fez menção de situações, necessidades e cuidados ao orar. Mas, sempre ligados a prática da oração:

Disse-lhes Jesus uma parábola sobre o dever de orar sempre e nunca esmorecer: (Lc 18.1)

A Confissão de Fé Batista de 1689 reconhece o dever e o poder da oração, quando diz:

“A oração com ações de graças, sendo uma parte natural da adoração, é por Deus exigida de todos os homens (Sl 95.1-7; 65.2). Mas, para que possa ser aceita, deve ser feita em nome do Filho (Jo 14.13-14), com a ajuda do Espírito (Rm 8.26), segundo a Sua vontade (1Jo 5.14), com entendimento, reverência, humildade, fervor, fé, amor e perseverança; […]” (CFB1689.22, 3).

Por isso, o reformador escocês bradou:

“Quem vai orar precisa saber e entender que oração é uma conversa fervorosa e familiar com Deus, a quem declaramos nossas misérias, cujo apoio e auxílio imploramos e desejamos em nossas adversidades, e quem louvamos e exaltamos pelos benefícios recebidos” (KNOX, p. 14).1

O Pecado da Omissão da Oração

Por que Samuel diz que é um pecado contra o Senhor?

  • Primeiro, porque, como vimos, a oração é uma ordenança divina (Lc 18.1, 1Ts 5.17). Portanto, uma vida de oração piedosa contempla necessariamente a intercessão, e a intercessão acontece apenas quando temos como alvo o outro e não a nós mesmos (1Sm 12.23, Tg 5.16, Fp 2.4);
  • Segundo, porque, quando deixamos de orar pelo próximo, afirmamos indiretamente que não nos importamos com ninguém além de nós mesmos e que a nossa percepção de fé, bem como a sua experiência, consiste unicamente em colocar a nós mesmos no centro de toda a existência e do relacionamento com Deus (1Jo 3.17, Tg 4.3, 2Tm 3.2);
  • Terceiro, porque, quando deixamos de orar, quando nos omitimos do dever da oração, também demonstramos incredulidade e, dessa forma, deformamos a religião cristã, reduzindo-a a uma experiência hipócrita, na qual professamos com a boca nossa crença e dependência em Deus, mas cuja vivência revela um ceticismo prático quanto à intervenção divina (Mt 15.8, Tg 2.17, Hb 11.6).

A intercessão, portanto é o ministério de cada crente. Consiste no poder compartilhado para que homens comuns sejam transformados em instrumentos de graça. Por isso, E. M. Bounds afirmou:

“O caminho da salvação não se encontra no coração que não ora.”2

Temos como maior exemplo o Senhor Jesus que intercede constantemente por nós. Se somos seguidores de Cristo, devemos fazer o que Ele faz. Por isso, deixar de orar pelo próximo é interromper o fluxo da graça de Deus que, soberanamente, passa através de nós para alcançar a vida de outras. Samuel entendia que ele tinha uma responsabilidade espiritual sobre aquela nação. Nós temos uma responsabilidade sobre a nossa família, sobre nossa igrejas e irmãos e sobre os nossos vizinhos.

Uma Aplicação Especial:

Essa responsabilidade, bem como o pecado de omitir-se dela, torna-se ainda mais evidente quando temos como alvo aqueles que são instrumentos de Deus para o nosso pastoreio, proteção e edificação (1Sm 12.23, Hb 13.17). Ministros levantados por Deus para serem instrumentos constantes e intencionais de graça, oficialmente separados para esse fim (Ef 4.11–12, At 20.28, 2Co 5.18–20).

Quando negligenciamos o exercício da oração para proteção e sustento espiritual daqueles que velam por nós, e utilizamos nossa boca para criticá-los, condená-los e julgá-los, estamos, de forma intencional, pecando contra Deus e fazendo da nossa língua um instrumento perverso (Hb 13.17, Tg 4.11–12, Tg 3.5–6), conforme afirmou Jonathan Edwards:

Se alguns cristãos, que se têm queixado dos seus ministros,
tivessem dito e agido menos diante dos homens e tivessem se
aplicado com todo o seu poder em clamar a Deus pelos seus
ministros — teriam, por assim dizer, levantado e agitado o céu
com suas orações humildes, fervorosas e incessantes em favor
deles e teriam tido muito maior sucesso.

Conclusão

Essa breve reflexão acerca de uma característica essencial daqueles que nasceram de novo em Cristo Jesus e são capacitados e munidos pelo Espírito Santo de Deus, constitui um chamado ao arrependimento constante, que conduz à contrição, à dependência e à oração (Jo 3.3–5, 2Co 1.21–22, Tg 4.8–10). Trata-se de um desafio a não olharmos para nós mesmos quando nos ajoelhamos e fechamos os olhos, mas a considerarmos os outros superiores a nós mesmos, como disse Paulo (Fp 2.3–4). É uma conclamação para que a nossa piedade não seja demonstrada por traços egoístas, colocando a nós mesmos como foco do nosso clamor, mas por um coração quebrantado e aquecido pelo próximo, por aqueles com quem passaremos toda a eternidade ao lado do nosso Senhor (Sl 51.17, 1Jo 3.16–18).

Quantas vezes levantamos a nossa voz para condenar o nosso irmão e os ministros de Deus e, quando comparamos isso com o tempo que usamos a nossa língua para interceder e suplicar para que o Senhor os muna com poder e graça. Percebemos, então, de forma ainda mais gritante — ao contrastar essas duas práticas — o quanto carecemos de uma vida de oração abnegada e intencional para o fortalecimento daqueles que, assim como nós, também fazem parte da família da fé, tendo recebido o dom da salvação em Cristo Jesus (Tg 3.9–10, 1Sm 12.23, Ef 6.18–19, Gl 6.10).

Que possamos ousar interceder mais pelo próximo do que orar por nós, para que possamos ser tomados pelo mesmo sentimento de Samuel: “longe de mim que eu peque contra o Senhor, deixando de orar por vós”.

Assista o Sermão:

  1. KNOX, John; CALVINO, João. Oração e a vida cristã. Tradução de Carlos Caldas. São Paulo: Editora Vida, 2016. ↩︎
  2. BOUNDS, E. M. O poder através da oração. Disponível em: https://www.monergismo.com/textos/livros/poder_oracao_bounds_livro.pdf. Acesso em: 20 jan 2026. ↩︎

1 comentário sobre “O DEVER DE ORAR PELO PRÓXIMO

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      Interessante como negligenciamos algo tão simples e tão importante como a oração. Esse texto mostra muitos trechos bíblicos e reflexões que nos levam a parceber como temos lidado de forma equivocada com essa graça maravilhosa que é poder falar, diretamente, com nosso Senhor. Foi muito interessante entender que não apenas devemos orar por nós, mas principalmente pelos da Igreja Local; e inclusive os seus oficiais, que são os instrumentos de Deus para edificação da Igreja.

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